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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Compreenda o que você está lendo - C. H. Spurgeon

/ On : 17:08/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.
Os escribas e fariseus, líderes religiosos do tempo de Jesus, liam bastante a Lei. Estudavam continuamente os livros sagrados, meditando sobre cada palavra e letra. Faziam anotações de assuntos de importância mínima, tais como: qual o versículo que ficava exatamente no meio do Antigo Testamento, que versículo estava na metade do meio, e quantas vezes aparecia determinada palavra, e até mesmo quantas vezes aparecia determinada letra, qual o tamanho da letra, e qual a sua posição específica. Eles nos legaram um acúmulo de anotações sobre as palavras das Sagradas Escrituras. Poderiam ter feito a mesma coisa com qualquer outro livro, e as informações teriam sido tão sem importância quanto os fatos que tão laboriosamente colecionaram, no tocante à letra do Antigo Testamento.

Eles eram, no entanto, assíduos leitores da Lei. Arrazoavam com o Salvador sobre uma questão concernente à Lei, porque a levavam na ponta da língua, e estavam dispostos a usá-la como uma ave de rapina usa as garras para rasgar e romper. Os discípulos de nosso Senhor tinham colhido algumas espigas de trigo e as esfregavam entre as mãos. Segundo a tradição farisaica, esfregar uma espiga de trigo é uma forma de debulhar e, sendo muito errado debulhar no sábado, forçosamente deveria ser muito errado esfregar nas mãos algumas espigas de trigo, mesmo quando se estivesse com fome, num sábado de manhã. Assim argumentavam, e levaram esse argumento para o Salvador, juntamente com a versão que tinham a respeito da lei do sábado. O Salvador geralmente guerreava no campo em que o inimigo o atacava, e nessa ocasião também agiu assim. Enfrentou-os no próprio campo deles, e lhes disse: "Não lestes?" — uma pergunta muito incisiva para os escribas e fariseus, embora não aparentasse ser cortante. Foi uma pergunta muito razoável e apropriada para fazer-lhes; mas pense só em fazer essa pergunta a eles! "Não lestes?" "Ler!" poderiam ter respondido, "ora, lemos o livro inteiro muitíssimas vezes. Sempre o lemos. Nenhum texto escapa ao nosso olhar crítico". Mesmo assim, o Senhor passou a postular a pergunta pela segunda vez: "Não lestes?", como se nada tivessem lido na realidade, apesar de serem os maiores leitores da Lei naquela época. Deu a entender que eles não tinham lido mesmo, e ainda lhes deixou saber por que Ele lhes perguntara se tinham lido. Disse: "Mas, se vós soubésseis o que significa:...", sugerindo o seguinte: "Vocês não leram, porque não compreenderam. Seus olhos passaram por cima das palavras, vocês contaram as letras, marcaram a posição de cada versículo e palavra, e têm dito coisas eruditas a respeito de todos os livros; apesar disso, vocês nem sequer são leitores do volume sagrado, pois não adquiriram a verdadeira arte da leitura; não compreendem e, portanto, não o lêem na realidade. Vocês fazem uma leitura superficial da Palavra, mediante breves olhadelas; não a leram, porque não a compreenderam". Esse é o primeiro tópico desta mensagem.

Não deve ser necessário introduzir estas considerações com uma declaração da necessidade de ler as Escrituras. Você sabe quão necessário é alimentar-nos da verdade revelada nas Escrituras Sagradas. Preciso perguntar se você lê a Bíblia, ou não? Lastimo que a presente época é de leitura de revistas — uma época da leitura de jornais — uma época de ler publicações periódicas, mas não tanto uma época de leitura bíblica quanto deveria ser. Nos tempos antigos, as pessoas tinham poucos suprimentos de outra literatura, mas achavam uma biblioteca suficiente naquele único Livro, a Bíblia. E como liam a Bíblia!

Há uma grande escassez das Escrituras nos sermões modernos, em comparação com os daqueles mestres da teologia, os teólogos Puritanos! Quase todas as frases escritas por eles parecem lançar luzes adicionais sobre um texto das Escrituras; não somente o texto a respeito do qual pregavam, mas ainda muitos outros eram enfocados de modo novo, no desenvolvimento do sermão. Deus ajude os pastores a seguirem mais de perto o grandioso velho Livro. Seríamos pregadores instrutivos se fizéssemos assim, mesmo desconhecendo "o pensamento moderno" e sem estar "à altura da atualidade".

Quanto a você, que não precisa pregar, o seu melhor alimento é a própria Palavra de Deus. Os sermões e os livros têm seu valor, mas os ribeiros que percorrem grandes distâncias acima do solo acabam acumulando, paulatinamente, alguma coisa das terras através das quais fluem, e perdem a pureza que refrigera e que possuíam quando brotaram da fonte originária. Sempre é melhor beber do poço do que da caixa d'água. Você descobrirá que ler pessoalmente a Palavra de Deus, ler a própria Palavra mais do que notas sobre ela, é o método mais seguro de crescer na graça. Beba do leite puro da Palavra de Deus, e não do leite desnatado, nem do leite com água da palavra dos homens.

Nosso argumento é que boa parte daquilo que parece ser leitura bíblica não é leitura bíblica de modo algum. Os versículos passam pelos olhos e as frases deslizam pela mente, mas não há uma leitura genuína. Certo velho pregador dizia: "A Palavra corre livremente entre muitas pessoas hoje em dia, pois entra por um ouvido e sai pelo outro"; parece que assim acontece também com certos leitores — conseguem ler muita coisa, porque nada lêem na realidade. O olho vê a página, mas a mente nunca se fixa no conteúdo. A alma não pousa na verdade para ficar ali. Esvoaça pela paisagem assim como fazem os pássaros, mas não constrói ninho nem acha repouso para seus pés. Ler assim não é realmente ler. Compreender o significado é a essência da leitura verdadeira. A leitura tem um âmago, uma noz, ao passo que a mera casca não tem valor.

Na oração, existe o "orar em oração" — um modo de orar que é o âmago da oração. Assim também no louvor existe o "louvar com cânticos", o fogo interior de devoção intensa que é a vida do "aleluia". Assim acontece também com a leitura da Bíblia. Há uma leitura interior, uma leitura do âmago — uma leitura viva e verdadeira da Palavra. É essa a alma da leitura e, sem ela, a leitura é um exercício mecânico que de nada aproveita.
A não ser que compreendamos aquilo que lemos, não o temos lido; fica ausente o âmago da leitura. É comum criticarmos os católicos romanos por conservarem o latim dos seus cultos diários; mas, se a congregação não ouve com entendimento, não faz diferença se é latim ou qualquer outro idioma. Alguns se consolam com a idéia de que praticaram uma boa ação ao lerem um capítulo da Bíblia, sem terem penetrado na mínima parte do significado; mas a própria natureza certamente rejeita tal coisa como mera superstição. Se você tivesse virado a Bíblia de cabeça para baixo, e passado algum tempo olhando na direção das letras assim viradas, o aproveitamento disso seria tanto quanto o aproveitamento recebido ao ler de maneira normal, porém sem entendimento. Ainda que se tivesse nas mãos um Novo Testamento grego, seria grego mesmo para muitos entre vocês, pois olhar sem compreensão para ele seria tão inútil quanto ler o Novo Testamento em português, sem compreendê-lo no coração.
Não é a letra que salva a alma; em muitos sentidos, a letra mata, e nunca poderá dar vida. Se você insistir na letra, exclusivamente, poderá ser tentado a usá-la como arma contra a verdade, assim como os fariseus faziam na antigüidade, e seu conhecimento da letra pode criar dentro de você o orgulho, para sua própria destruição. É o espírito, o significado interior verdadeiro, quando aspirado pela alma, que nos abençoa e nos santifica. Ficamos totalmente embebidos na Palavra de Deus, como a lã de Gideão; e isso pode acontecer somente por meio de acolhermos a Palavra em nossa mente e coração, aceitando-a como a verdade de Deus, compreendendo-a suficientemente para nos deleitarmos nela. Devemos compreendê-la, portanto; de outra forma, é sinal que não a lemos corretamente.

É certo que o benefício da leitura precisa chegar à alma através do entendimento. Deve haver conhecimento de Deus antes de poder haver amor a Deus; deve haver conhecimento das coisas divinas, conforme são reveladas, antes de podermos desfrutar delas. Devemos procurar descobrir, dentro das limitações das nossas mentes finitas, o que Deus pretende ao dizer isso, e o que Ele pretende ao dizer aquilo; de outro modo, podemos chegar a beijar o Livro, sem termos amor ao conteúdo; e a reverenciar a letra, sem termos a verdadeira devoção ao Senhor que nos fala através dessas palavras. Você nunca obterá consolo para a alma através daquilo que não entende, nem achará orientação para sua vida naquilo que você não compreende; nenhuma lição prática para o seu caráter pode advir daquilo que não é entendido por você.

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