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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mordomos - C. H. Spurgeon - Sermão 3350 (Stewards) -

/ On : 15:34/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.
"Que os homens nos considerem ministros de Cristo e mordomos dos mistérios de Deus. Requer-se dos mordomos, que cada um seja achado fiel”,I Cor. 4:1-2.

O apóstolo anelava ser tido pelo que era, e tinha razão; pois os ministros nem sempre são apreciados corretamente. Geralmente muitos se gloriam neles, outros os depreciam. No início de nosso ministério, quando o que dizemos é novidade e nossas energias transbordam, quando ardemos e lançamos faíscas, passamos muito tempo em preparar fogos de artifício, as pessoas são propensas a considerar-nos seres maravilho­sos; então é necessária a palavra do apóstolo: "Ninguém se glorie nos homens", I Cor. 3:21. Não é certo, como insinuam os aduladores, que em nosso caso os deuses hajam descido em semelhança de homens; e seremos idiotas se acreditarmos nisso. A seu devido tempo, as ilusões estúpidas serão substituídas pelos desenganos, e então ouviremos a desagradável verdade mesclada de censuras injustas. Cedo ou tarde, o tempo produz o desencanto, e transforma nossa posição no apreço do mundo. Passaram os dias da primavera, e chegou o tempo das ortigas. Concluída a época em que as aves cantam, aproxima-se a estação dos frutos; mas as crianças não ficam tão contentes conosco como quando passeavam por nossos exuberantes prados, fazendo coroas e grinaldas com nossas flores. Talvez não estejamos percebendo. O homem maduro é sólido e lento, enquanto o jovem cavalga nas asas do vento. É evi­dente que alguns têm idéias exageradas do que nós somos; outros têm idéias de modo demasiadamente mesquinho; seria muito melhor se todos eles pensassem sobriamente que somos "ministros de Cristo". A Igreja lucraria, nós seríamos beneficiados e Deus seria glorificado, se nos colocassem no lugar exato e nos mantivessem ali, sem apreciar-nos em demasia, nem censurar-nos injustamente, mas considerando-nos em relação ao Senhor e não em nossas próprias personalidades. "Que os homens nos considerem como ministros de Cristo."
Somos MINISTROS. Esta palavra soa de modo respeitável. Ser ministro é a aspiração de muitos jovens. Talvez se a palavra do original fosse traduzida de outro modo, esfriaria a ambição deles. Os ministros são servos: não são convidados, mas criados; não são senhores, mas servidores. A mesma palavra tem sido traduzida "remadores", exatamente os que movem os remos do banco inferior. Remar numa galera sempre era trabalho duro; aqueles movimentos rápidos esgotavam as forças vitais dos escravos. Havia três fileiras de remadores: os do banco superior tinham a vantagem do ar fresco; os que ficavam abaixo deles estavam mais escondidos; mas suponho que os trabalhadores do remo inferior, além de exaustos pelo esforço penoso, estavam sujeitos a desmaiar de calor. Irmãos, contentemo-nos em gastar nossas vidas ainda que seja na pior das posições, se através do nosso serviço pos­samos ser instrumentos para que o nosso grande Capitão apresse Sua volta e que possamos ajudar o avanço da embarcação da Igreja que Ele conduz. Estejamos dispostos a movimentar o remo e a trabalhar du­rante toda a vida para que Seu navio corte as ondas. Não somos capi­tães nem proprietários do barco, mas apenas remadores de Cristo.
Recordemos que somos servos na casa do Senhor. "O maior dentre vós seja vosso servo." Estamos dispostos a ser o tapete à porta de entrada do nosso Mestre. Não busquemos glória para nós, mas ponha­mos honra nos vasos mais frágeis mediante nossos cuidados. Que os pobres, os débeis e os afligidos tenham o lugar de honra na Igreja do Senhor, e nós que estamos fortes levemos suas fraquezas. Quem se humilha é exaltado; e o que se faz menos que o mais inferior, é o maior. "Quem enferma, que eu não enferme?", interroga o apóstolo. Se há algum escândalo a suportar, melhor sofrê-lo do que permitir que ele aflija a Igreja de Deus. Uma vez que somos, por nossas funções, servos num sentido especial, suportemos alegremente a parte principal de abnegação e os trabalhos penosos dos santos.
Entretanto, o texto não nos designa simplesmente servos ou mi­nistros, mas acrescenta "de Cristo". Não somos servos dos homens, e sim do Senhor Jesus. Amigo, se você crê que devido contribuir para meu sustento, estou obrigado a seguir suas opiniões, está equivocado. E certo que somos "vossos servos por Jesus"; contudo, no sentido mais elevado possível, nossa única responsabilidade é perante Aquele a quem chamamos Mestre e Senhor. Obedecemos ordens superiores; mas não podemos ceder aos caprichos dos nossos companheiros de serviço, por mais influentes que sejam. Nosso serviço é glorioso, porque pertence a Cristo; sentimo-nos honrados pelo privilégio de servirmos Aquele cujos sapatos não somos dignos de desatar.
Afirma-se também que somos MORDOMOS. Que é ser mor­domo? Esta é a nossa função. Que se requer de um mordomo? Este é o nosso dever. Estamos falando agora de nós mesmos; portanto, façamos uma aplicação pessoal de tudo que for dito.
1. Primeiramente, um mordomo é apenas um servo. Talvez nem sempre se percebe, mas é algo lamentável que o servo comece a pensar que é o amo. É uma lástima que os servos, quando passam a ser honrados pelos seus mestres, começam a inchar-se. Quão ridículo pode chegar a ser mordomo! Não me refiro a mordomos ou lacaios, e sim a nós mesmos. Se nos engrandecemos a nós mesmos, chegaremos a ser depreciáveis; nem honramos à nossa função nem exaltamos ao Senhor. Somos servos de Cristo, e não senhores sobre a herança dEle.
Os ministros são para as igrejas, e não as igrejas para os minis­tros. Trabalhando para as igrejas, não poderemos ter a ousadia de considerá-las como propriedades a explorar em benefício próprio, nem jardins a cultivar segundo nosso próprio gosto. Alguns falam da forma liberal de governo na sua igreja. Que sejam liberais com o que lhes pertence; porém que o mordomo de Cristo se orgulhe de ser liberal com os bens de seu Mestre, é coisa bem diferente. Como mordomos, somos apenas servos de categoria; que o Senhor mantenha em nós um espírito de plena obediência! Se não temos cuidado em conservar-nos em nosso devido lugar, o Mestre não deixará de admoestar-nos e de humilhar nosso orgulho. Quantas de nossas aflições, fracassos e depres­sões procedem de que nos sentimos demasiadamente orgulhosos! Estou convicto de que nenhum dos que têm sido honrados por Deus publi­camente desconhece os castigos administrados em secreto, os quais impedem que a carne soberba se exalte indevidamente. Quantas vezes tenho orado: "Não me retires do Teu serviço, Senhor!", pois o mor­domo despedido é objeto de comiseração entre os servos do Senhor. Noutros tempos era grande e poderoso, cavalgando o melhor cavalo; mas depois de afastado, torna-se menos que o mais insignificante va­queiro. Vejam quão contente ele se mostra em ser recebido, como agradecido hóspede, nas humildes casinhas daqueles que outrora o admiravam com especial respeito, quando representava a seu Senhor! Cuidado para não serem exaltados demasiadamente, caso contrário serão aniquilados.
2. O mordomo é um servo de tipo especial, pois tem de super­visionar os demais servos, que é tarefa difícil. Antigo amigo meu, já com o Senhor, me disse em certa ocasião: "Sempre tenho sido pastor. Durante quarenta anos fui pastor de ovelhas, e por outros quarenta, pastor de homens, e o segundo rebanho era muito mais pusilânime do que o primeiro." Tal testemunho é verdade. Creio ter ouvido dizer que a ovelha tem tantas enfermidades quantos os dias do ano; mas o outro tipo de ovelha é capaz de ter dez vezes mais doenças. O trabalho do pastor é excessivamente pesado. Nossos companheiros de serviço são assediados por toda a classe de dificuldades; e é deplorável que os mordomos pouco sábios causam muitas outras desnecessárias, devido exigirem dos demais aquela perfeição que eles mesmos não possuem. Além disso, nossos conservos foram sabiamente selecionados. Aquele que os pôs em Sua casa sabia o que estava fazendo; são escolhidos do Senhor, e não nossos. Não nos compete achar defeitos nos eleitos do Senhor. Entre alguns é hábito comum injuriar a Igreja; mas uma vez que a Igreja é a noiva de Cristo, é bastante perigoso criticar à amada do Senhor. Nesse aspecto, procuro imitar a Davi na sua atitude em relação a Saul: não me atrevo levantar a mão contra o ungido do Senhor. Muito melhor é que descubramos nossos próprios defeitos antes que censuremos as falhas alheias.
Além disso, os membros da nossa igreja são seres humanos, e mesmo o melhor deles é apenas humano, ainda que no melhor sentido. Dirigir, instruir, consolar e ajudar a tantas pessoas diferentes, sem dúvida não é tarefa simples. O que governa entre os homens, em nome de Deus, deve ser homem; mais do que isso, precisa ser homem de Deus. Deve estar dotado da graça, ser de estirpe real, e destacar-se dos demais em vários aspectos. Os homens acatarão a verdadeira superiori­dade, mas não as pretensões oficiais. A posição superior há de estar sustentada por atitudes superiores. O mordomo precisa saber mais do que o lavrador e o peão. Possuir inteligência superior à do vigia e do carreteiro, e um caráter mais eficiente do que a das pessoas comuns às quais tem de transmitir ordens. Como mordomos, é indispensável que tenhamos graça abundante, pois do contrário não cumpriremos nossos deveres nem alcançaremos promoções.
Os demais servos se regerão pelo que fazemos. O mordomo apático, inerte e lento sempre terá a seu redor uma equipe de trabalhadores lentos, resultando em sérios prejuízos nos negócios do Senhor. Um ministro logo se verá rodeado de pessoas semelhantes. Oxalá sejamos sempre atentos e fervorosos no serviço do Senhor Jesus, para que nossa congregação também seja consagrada. Li de um teólogo puritano que demonstrava tal entusiasmo que sua igreja afirmava viver como se alimentasse de coisas vivas. Que de igual modo nossa vida seja susten­tada pelo Pão vivo!
A menos que sejamos nós mesmos cheios da graça de Deus, não seremos bons mordomos na orientação de nossos companheiros de serviço. Devemos ser para eles exemplo de zelo e ternura, constância, esperança, energia e obediência. É preciso que pratiquemos constante abnegação e aceitemos como nossa parte no trabalho o mais difícil e mais humilhante. Seremos elevados acima dos companheiros através de um desinteresse superior. Encarreguemo-nos de ir à frente das empresas perigosas e de levar as cargas mais pesadas. Precisamos realizar algumas das tarefas mais penosas na Igreja, e servir nos lugares mais duros. Por que não havemos de estar dispostos a ocupar essas posições? O Senhor exaltará aos que não escolhem por si mesmos, mas estão dispostos a fazer qualquer coisa e ir a todo lugar. O que vence o medo na hora do perigo terá como recompensa o privilégio de poder de­monstrar ainda maior coragem. O que é fiel no pouco, será designado para um setor de trabalho de maior importância e prova mais severa; este é o progresso a que aspiram os servos leais do nosso Rei.
3. Prosseguindo, lembremos que os mordomos são servos sob as
ordens mais imediatas do grande Mestre.
Temos de ser como o mor­domo que diariamente se dirige à presença do Senhor a fim de receber ordens. O simples lavrador nunca vai à casa do patrão, mas o mor­domo não pode deixar de comparecer ali. Se falhasse em consultar ao seu senhor, logo cometeria erros e se envolveria em graves compli­cações. Como deveríamos repetir constantemente: "Senhor, que queres que eu faça?" Deixar de buscar a Deus a fim de descobrir e pôr em prática Sua vontade, seria abandonar nossa verdadeira posição. Que se fará ao mordomo que nunca se comunica com o amo? Ora, fazer as contas e despedi-lo! O que faz a própria vontade e não a do senhor não pode exercer a função de mordomo.
É preciso que estejamos continuamente esperando ordens de Deus. E indispensável cultivar o hábito de buscá-lO à procura de orientação. Quão gratos devíamos ser pelo fato de o Amo estar sempre atento à nossa voz! Ele guia a Seus servos com os olhos; e junto com a direção, Ele concede também o poder necessário. Ele tornará nossos rostos bri­lhantes perante os companheiros quando mantemos comunhão com Ele. Nosso exemplo há de influir a outros para estar às ordens do Senhor continuamente. Se nossa ocupação é transmitir-lhes os pensa­mentos de Deus, então estudemos cuidadosamente os Seus pensamen­tos. Que ninguém se descuide no cultivo do hábito de ir ao trabalho sem antes estar em comunhão com o Senhor. Se o mordomo não demonstra interesse pelos assuntos do amo, e se torna obstinado, chegando a inverter as ordens do seu senhor; se de algum modo se entromete em negócios impróprios, então os servos que estão sob sua liderança aprenderão a ser desleais. O Mestre breve voltará, e ai do mordomo que ao prestar contas for julgado infiel!
4.      Os mordomos estão constantemente prestando contas. Suas con­ tas são dadas à proporção que marcham. Um proprietário cuidadoso exige a conta de receitas e despesas cada dia. É importante considerar as próprias falhas e defeitos. Isso nos levará a utilizar melhor o tempo em constantes esforços no serviço do Amo a fim de aumentar os Seus bens. Cada um deve interrogar-se a si mesmo: "O que estou con­seguindo com a minha pregação? É do tipo certo? Estou dando ênfase àquelas doutrinas que o Senhor deseja que apresente de preferência? Dedico às almas o interesse que Ele quer que eu demonstre?" É proveitoso analisar assim todas as áreas da vida, e considerar: "Gasto o tempo suficiente com a oração em secreto? Estudo as Escrituras tão intensamente quanto devo? Vou correndo a muitas reuniões; mas estou em tudo isso cumprindo às ordens do meu Mestre? Não é possível que procure satisfação para mim mesmo com a aparência de realizar muito, enquanto na realidade eu faria mais se fosse mais cuidadoso na quali­dade do serviço do que na quantidade?" Oxalá recorramos constante­mente ao Senhor e tenhamos sempre corretas e claras nossas contas com Ele!
5. Destaquemos o ponto principal: o mordomo é o depositário e administrador dos bens do seu senhor. Tudo o que ele tem pertence ao senhor, e ele é guarda de tesouros especiais, não para que faça deles o que desejar, mas para que cuide deles. Os dons de conhecimento, raciocínio, fala e influência não nos pertencem para que nos gloriemos deles, mas os temos em depósito a fim de administrá-los para o Se­nhor. O dom que ganha outros cinco é Seu.
Deveríamos aumentar o capital. Todos estão fazendo isso? Estão crescendo em capacidade e desenvolvendo os dons? Irmãos, cuidem de vocês mesmos. Observo que alguns crescem, mas outros estacionam e se transformam em anões, sem desenvolvimento. Lamento que tantos jovens destroem nossas esperanças; tornam-se extravagantes nos gas­tos; casam irrefletidamente, tornam-se presa do mau humor, buscam opiniões modernas, cedem à preguiça ou ao relaxamento, ou deixam de progredir de alguma maneira. Considero o esforço mais necessário e proveitoso o que dedicamos a nos melhorar mental e espiritualmente. Seja qual for a sua atividade, acima de tudo cuidem de vocês mesmos e da doutrina. Os que negligenciam a meditação a fim de viver conti­nuamente tagarelando, são muito néscios; assemelham-se a mordomos que nada fazem na granja, mas falam demasiadamente do que deveria ser feito. Os cães mudos não podem latir, mas os cães prudentes não estão sempre a latir. Estar continuamente dando de si e nunca rece­bendo, leva à vacuidade.
Irmãos, somos "mordomos dos mistérios de Deus"; foi-nos "con­fiado o evangelho". Paulo se refere ao glorioso evangelho do Deus bendito que lhe foi confiado. Espero que nenhum de vocês tenha ja­mais a infelicidade de ser feito administrador da fé. É uma função ingrata. Ao desempenhá-la, há pouca margem para a originalidade; vemo-nos obrigados a administrar nosso depósito com rigorosa exati­dão. Alguém deseja receber mais dinheiro, outro pretende alterar uma cláusula da escritura; mas o fiel administrador se apega ao documento, e o obedece. Mesmo pressionado, responde: "Sinto muito, mas não redigi o documento; sou apenas administrador de um depósito, e estou obrigado a cumprir as cláusulas." O evangelho da graça de Deus, dizem alguns, necessita de grandes reformas; mas sei que não é da minha conta reformá-lo; o que me cabe fazer é agir conforme ele afirma. Sem dúvida muitos gostariam de fazer uma reforma na pessoa de Deus, apagando-O da face da terra, se pudessem. Reformariam a expiação até que desaparecesse. Exigem de nós grandes transformações, em nome do "espírito do século". Asseveram que o próprio conceito de punição do pecado é uma relíquia bárbara da Idade Média; convém modificá-lo, bem como a doutrina da substituição, além de muitos outros dogmas que caíram de moda. Nada nos afetam essas exigências; nosso dever é anunciar o evangelho tal como o recebemos.
Como depositário, se alguém discute meu proceder, atenho-me à letra da escritura legal; se alguns discordam, que apresentem suas re­clamações ao tribunal correspondente, pois não tenho poderes para alterar o texto. Somos simples administrador; se não nos permitem atuar, encaminharemos todo o assunto à chanceleria celeste. A disputa não é entre nós e o pensamento moderno, mas entre Deus e a sabedoria humana. Dizem: "Mas é absurdo continuar repisando esta história antiquíssima!" Não nos importa a sua antigüidade; ela veio de Deus, e a repetimos em Seu nome. Seja qual for o conceito que tenham sobre ela, encontra-se no Livro do qual tiramos nossa autoridade. Os mordo­mos têm de apegar-se às ordens recebidas, e os administradores pre­cisam cumprir as condições que lhes foram impostas.
Irmãos, nesta hora presente "fomos postos para a defesa do evangelho". Se há homens convocados para esse cargo, somos nós. Vivemos em tempos de insegurança; muitos levantaram as âncoras e estão sendo levados por ventos e correntes de vários tipos. Precisamos estar bem firmados. Talvez raciocínios céticos me hajam arrastado noutros tempos, mas não agora. Sugerem os inimigos que guardemos as espadas e cessemos de lutar pela fé antiga? Respondemos como os gregos replicarem a Xerxes: "Venham, e tomem-nas." Até pouco tempo, pensadores avançados tentavam derribar os ortodoxos para lançá-los no pó; mas até agora temos sobrevivido a seus assaltos. São uns vaidosos que não conhecem a vitalidade das verdades evangélicas. Não, o glori­oso evangelho não perecerá jamais. Se havemos de morrer, morreremos lutando. Se temos de desaparecer pessoalmente, novos evangelis­tas pregarão sobre os nossos túmulos. As verdades evangélicas farão surgir outros homens completamente equipados para a batalha. O evangelho vive pela morte. Seja como for, nesta lida, se não somos vitoriosos, pelo menos seremos fiéis.
6.0 trabalho do mordomo consiste em distribuir os bens de seu amo, segundo o objetivo a que estão destinados. Há de retirar coisas novas e coisas velhas, há de oferecer leite aos pequeninos e carne sólida aos amadurecidos, repartindo a cada um sua porção oportunamente. Receio que nalgumas mesas os homens fortes fiquem aguardando a carne por muito tempo e haja pouca esperança de que apareça, pois o que há em quantidade é leite com água. No domingo anterior alguém foi escutar certo pregador, e se queixou de que não pregou a Cristo; outro explicou que talvez não era momento adequado. Respondo que o momento adequado de se pregar a Cristo é cada vez que se pregue. Os filhos de Deus estão sempre famintos, e não existe nada que os satis­faça, senão o que desce do céu.
O mordomo prudente há de manter a proporção exata. Apresen­tará sempre coisas novas e coisas velhas; nem sempre doutrina, nem sempre prática, nem sempre experiência. Nem sempre pregará o con­flito, nem sempre a vitória. Não apresentará um só aspecto da verdade, mas uma espécie de visão estereoscópica que fará com que a verdade se destaque por evidência. Grande parte da preparação dos alimentos espirituais consiste na correta proporção dos ingredientes. Apresente­mos boa porção de experiência, sem esquecer aquela vida superior que consiste numa crescente humildade espiritual. Demonstrar a fundo nosso ministério requer muita habilidade, pois a falta de proporção no que se prega tem causado graves danos a muitas igrejas. A vereda da sabe­doria é tão estreita como o fio de navalha e para segui-la necessitamos da iluminação divina. Não se toca harpa usando apenas uma corda. Os servos do nosso Amo haverão de murmurar se lhes damos somente coelho quente e coelho frio. Temos de retirar da despensa do Mestre grande variedade de alimentos apropriados para o desenvolvimento da virilidade espiritual. O excesso numa direção e escassez noutra, podem produzir muito mal; portanto, usemos o peso e a medida, e busquemos direção.
Irmãos, tomem o cuidado de usar seus talentos para seu Amo, e só para Ele. Desejar ser pescadores de almas só para que pensem que o somos, é deslealdade ao Senhor. É infidelidade ao Senhor, mesmo se pregarmos boa doutrina com o objetivo de sermos considerados corre­tos, ou orarmos fervorosamente com o desejo de sermos conhecidos como homens de oração. Temos de buscar a glória do Senhor com simplicidade e de todo o coração. É preciso que usemos o evangelho do Senhor, a congregação do Senhor, e os talentos do Senhor, para Ele e para mais ninguém.
7. O mordomo deve ser também o guarda da família do seu amo.
Cuidem dos interesses de todos os que estão em Cristo, e que todos
sejam tão caros para vocês como seus próprios filhos. Nos tempos
antigos os criados se sentiam tão ligados à família, e de tal modo
integrados nos assuntos de seus amos, que se referiam à nossa casa,
nossas terras, nossos cavalos, nossos filhos. Assim é como o Senhor espera que nos identifiquemos com Seus negócios santos, e especialmente deseja que amemos a Seus escolhidos. Nós, mais do que ninguém, devemos entregar nossas vidas por nossos irmãos. Devido pertencerem a Cristo, os amamos por causa dEle. Confio que cada um possa dizer de coração:
"Não há cordeiro em Teu rebanho que eu recusaria apascentar." Irmãos, amemos de coração a todos aqueles a quem Jesus ama. Tratem carinhosamente os que estão sendo provado e sofrendo. Visitem os órfãos e as viúvas. Cuidem dos fracos e desanimados. Suportem os tristes e desesperados. Atendam a todos os da casa, e assim serão bons mordomos.
8.      Terminarei este quadro afirmando que o mordomo representa o seu amo. Quando o amo esta longe, todos vêm ao mordomo para receber ordens. O que representa um Senhor como o nosso necessita portar-se bem. O mordomo deve agir com muito maior cuidado e prudência quando fala por seu senhor do que quando o faz por conta própria. A menos que seja precavido no que diz, o senhor pode ver-se obrigado a declarar: "Você faria melhor em falar por sua conta; não posso permitir-lhe que me represente de maneira imprópria." Amados irmãos e companheiros de serviço, o Senhor Jesus é mal representado por nós se não observamos o Seu caminho, declaramos Sua verdade e manifestamos Seu Espírito. Pelo criado os homens deduzem quem é o amo; não seria justo que assim o façam? Não deveria agir o mordomo à maneira do seu amo? Não podem separá-los, nem ao amo de seu mordomo, nem ao Senhor do Seu representante. Quando disseram a um puritano que ele era demasiadamente cuidadoso, replicou: "Sirvo a um Deus cuidadoso." Nós temos de ser bondosos, pois representamos o bondoso Jesus; precisamos ser zelosos, pois representamos Alguém que Se vestia de zelo como de um manto. Nosso melhor guia, quando estivermos inseguros sobre o que havemos de fazer, se achará na resposta à pergunta: "Que faria Jesus?"
Imitem a Jesus, que não falava de Seus próprios pensamentos mas dos do Pai. Assim, atuarão como deve fazer um mordomo. Nisso se firmam sua sabedoria, seu consolo e seu poder. Mesmo se nos acusarem de loucos, estamos certos de estar observando às ordens do Senhor. Os queixosos não podem acusar ao mordomo: ele age con­forme a determinação de seu superior. Nossa consciência está limpa e nosso coração permanece em repouso, se nos certificamos de haver tomado a cruz e seguido as pegadas do Crucificado. A obediência é melhor do que a originalidade, e a capacidade para ser ensinado mais desejável do que o gênio. A revelação de Jesus Cristo durará mais do as especulações humanas. Damo-nos por satisfeitos, e mais ainda, almejamos não ser considerados como pensadores originais e homens de imaginação; nossa tarefa é dar a conhecer os pensamentos de Deus e terminar a obra que Ele está efetuando poderosamente em nós.
A segunda parte desta mensagem tratará de NOSSAS OBRI­GAÇÕES COMO MORDOMOS. "Requer-se dos mordomos, que cada um seja achado fiel." Não se exige que cada um seja engenhoso, agradável aos associados, nem sequer que seja eficiente. Tudo o que se requer é que seja achado fiel; e na verdade não é coisa de pouca importância. Será necessário que o Senhor mesmo Se torne nossa sabe­doria, e nosso poder, pois do contrário fracassaremos. Muitas são as maneiras em que podemos falar neste ponto, por muito simples que nos pareça.
1. Podemos deixar de ser fiéis quando atuamos como se fôssemos chefes em vez de subordinados. Surge na Igreja uma dificuldade que poderia ser solucionada facilmente com tolerância e amor, mas "nos firmamos em nossa dignidade" e então exageramos nossa importância. Podemos ser muito elevados e poderosos se desejamos; e quanto menor somos, tanto mais facilmente nos inchamos. Não há galo mais impo­nente na briga do que o nanico; não existe ministro mais disposto a lutar por sua dignidade do que aquele que não a possui. Que coisa tão insensata é quando nos fazemos "grandes"! O mordomo crê que não tem sido tratado com o devido respeito e se esforça para fazer com que "os criados reconheçam a quem ele é". Um dia o senhor da casa foi insultado por um inquilino zangado e não fez caso, pois possuía bas­tante bom senso para não perturbar-se ante um assunto insignificante; mas o mordomo não passa nada por alto, e se irrita por tudo. Deveria ser assim? Parece-me ver o bondoso patrão pôr a mão sobre o ombro do servo furioso e ouvir-lhe dizer: "Não pode suportá-lo? Eu já tenho suportado muito mais!"
Irmãos, o Senhor "sofreu tal contradição dos pecadores contra si mesmo", e nós nos cansaremos e desmaiaremos em nossos espíritos? Como podemos ser mordomos do bondoso Senhor Jesus se nos porta­mos altivamente? Não nos demos demasiada importância, nem trate­mos de exercer domínio sobre a herança de Deus; pois Ele não deseja isso, e não podemos ser fiéis se cedemos ao orgulho.
Também fracassaremos em nossos deveres como mordomos se começamos a especular com o dinheiro do Senhor. Talvez possamos dispor do nosso, mas não dos recursos do Senhor. Não nos ordenou que especulemos, mas que nos "ocupemos" até que Ele volte. Não penso em especular com o evangelho do meu Senhor, sonhando que posso melhorá-lo por meio dos meus próprios e profundos pensamen­tos ou tentando voar na companhia dos filósofos. Tratando-se de salvar almas, não vamos falar de outro tema senão do evangelho. Ainda que pudesse gerar grande comoção transmitindo novidades, repilo tal pen­samento. Promover um avivamento suprimindo a verdade é agir falsa­mente; significa fraude piedosa, e o Senhor não aprova nenhum bene­fício advindo de tais transações. Nosso dever é usar de modo simples e honrado os talentos do Senhor, e devolver-Lhe os lucros resultantes dos negócios justos.
Somos mordomos, e não senhores, e por isso é preciso que ne­gociemos em nome do nosso Amo, e não no nosso próprio. Não temos que fabricar uma religião, mas sim proclamá-la, e mesmo essa proclamação há de fazer-se, não por nossa autoridade, mas baseada na do Senhor. Somo "coajuntores juntamente com Ele". Não tratemos de atuar por nossa própria conta, mas conservemos o nosso posto próximo do Chefe em toda a humildade espiritual.
2. E possível que cheguemos a ser desleais ao que nos foi enco­mendado se agimos para agradar aos homens. Se o mordomo estuda o modo de agradar ao lavrador ou de satisfazer aos caprichos da empre­gada, as coisas vão necessariamente mal, pois está fora de lugar. In­fluímos uns sobre os outros, e também somos influídos de modo recíproco. Os maiores são inconscientemente afetados em certa medida pelos mais insignificantes. O ministro deve ser influído de modo pode­roso pelo Senhor, de forma que as demais influências não o afastem da fidelidade. Temos de recorrer constantemente ao Quartel General, e receber a Palavra da boca do Senhor mesmo, a fim de sermos conti­nuamente guardados na retidão e na verdade; do contrário, logo nos tornaremos parciais, ainda que não percebamos. Não temos de tocar certa nota para obter a aprovação de tal partido, nem silenciar uma doutrina importante para evitar ofender a determinado grupo. Não pode haver reservas com o objetivo de agradar a alguém, nem a mínima concessão para satisfazer, mesmo que seja a comunidade inteira. Que temos a ver com os ídolos, mortos ou vivos? Se vocês idealizam satisfazer a todo o mundo, enorme esforço lhes aguarda. É preciso que não adulemos aos homens. Se agradamos aos homens, não agradare­mos a Deus, de modo que o êxito na tarefa a que nos dedicamos seria fatal para os nossos interesses eternos. Ao tentarmos satisfazer aos homens, nem sequer conseguiremos agradar a nós mesmos. Ainda que nos pareça muito difícil, é mais fácil agradar ao Senhor do que aos homens. Mordomo, mira só ao seu Amo!
3. Não seremos julgados mordomos fiéis se somos ociosos e des­perdiçamos o tempo. Vocês conhecem ministros preguiçosos? Tenho ouvido falar deles; contudo, quando os vejo, meu coração os aborrece. Se intentam ser indolentes, há muitos setores profissionais que lhes re­jeitarão; mas acima de tudo não há lugar para vocês no ministério cristão. O homem que considera o ministério uma vida fácil, há de deparar-se depois com uma morte difícil. Se não somos laboriosos, não somos verdadeiros mordomos; temos de ser exemplo de diligência para a casa do Rei. Aprecio o preceito de Adam Clarke: "Matem-se trabalhando e depois ressuscitem-se pela força da oração." Jamais cumpri­remos nossos deveres para com Deus e para com os homens se somos folgazões.
No entanto, alguns que sempre estão atarefados podem, apesar disso, ser infiéis, se tudo que fazem é feito de modo desleixado e leviano. Temos de ser sérios como a morte em trabalho tão solene. Há certos pregadores que sempre estão gracejando. Eu gosto muito de rir; o verdadeiro humor pode ser santificado, e os que conseguirem levar outros a sorrir são capazes de move-los a chorar. Mas este poder tem limites que o néscio pode ultrapassar. Por certo não falo agora do excêntrico convencido. Os homens aos quais me refiro são os sarcásti­cos e críticos. Um irmão fervoroso comete um lapso de gramática, e observam com desprezo; outro colega devoto se engana em uma ci­tação, e isso lhes proporciona enorme prazer. Para eles, o evangelho nada é; seu ídolo é a inteligência. Quanto a si mesmos, sua preocu­pação principal é descobrir como podem ser mais honrados. Não têm convicções nem crenças, mas apenas gostos e opiniões, e tudo isso é um jogo do princípio ao fim. Rogo-lhes que não se acheguem a esse tipo de escarnecedores nem do assento dos que dissipam o tempo. Sejam seriamente fervorosos. Vivam como homens que possuem algo pelo qual viver; e preguem como os que julgam a pregação a mais sublime atividade do seu ser. Nosso trabalho é o mais importante que existe debaixo do céu, ou do contrário, é pura falsidade. Se vocês não são fervorosos em obedecer às instruções do seu Senhor, Ele transfe­rirá Sua vinha para outro; não tolera aos que transformam Seu serviço em algo sem importância.
4.  Quando fazemos mau uso do que pertence ao nosso Amo, somos desleais ao que nos foi confiado. Foi-nos entregue certo grau de talento, força e influência; temos de usar este depósito com uma única finalidade. Nosso objetivo é fomentar a honra e a glória do Mestre e Senhor.
Temos de buscar a glória de Deus, e nada mais. Nenhum ministro tem direito de usar sua influência para fins políticos; a temperança é algo meritório, mas qualquer movimento jamais deve ocupar o lugar do evangelho. Em hipótese alguma pode o obreiro empregar sua capacidade para divertir ao povo. Fomos enviados para ganhar almas. Tudo que nos ajuda a alcançar esse alvo deve ocupar nossa atenção e despertar nosso interesse.
Não usem os bens do seu Amo indevidamente, a fim de que não sejam culpados de abuso de confiança. Se sua consagração é ver­dadeira, todos os seus dons pertencem ao Senhor, e seria uma espécie de desfalque empregá-los para outro fim, em vez de usá-los para Ele. Não têm de fazer fortuna para vocês mesmos; não creio provável que o façam no ministério. Não podem ter uma segunda intenção, nem qualquer outro objetivo. "Só Jesus" há de ser o motivo e o lema da sua carreira vitalícia. O dever do mordomo é consagrar-se totalmente aos interesses do patrão; e se esquece isso por causa de outro objetivo, por mais louvável que possa ser, não é fiel. Não podemos permitir que nossas vidas corram por dois canais; não temos forças vitais suficientes para um duplo objetivo. E preciso que sejamos de coração simples. Temos de pôr em prática o lema: "Uma coisa faço." Em todas as áreas e detalhes da vida, há de notar-se o sinal da consagração, e não devemos permitir que seja ilegível. Virá o dia em que todos os detalhes serão examinados na audiência final; compete-nos como mordomos ter em conta o julgamento do Senhor em todos os aspectos da nossa atividade.
5.  Se desejamos ser fiéis como mordomos, é preciso que não des­ cuidemos a nenhum da família, nem qualquer parte da vinha. Inter­rogo-me se observamos pessoalmente os nossos ouvintes. Temos de fazer visitas pessoa por pessoa. Certos indivíduos só podem ser alcançados através de contacto pessoal. Se tivesse diante de mim certa quantidade de garrafas e tivesse de enchê-las com uma mangueira, muita água se perderia; se de fato quero enchê-las, preciso tomá-las uma a uma e derramar o líquido cuidadosamente. Temos de velar pelas nossas ovelhas uma por uma. Isto deve ser feito não só mediante a conversa pessoal, mas através da oração pessoal.
Certo crente piedoso, enfermo, dedicou-se à fervorosa intercessão, e mesmo sem poder dar um passo, visitava as famílias, orando constantemente por todos os lares. Assim devemos percorrer o campo e visitar as congregações, sem esquecer a ninguém, sem desanimar-se de nenhum, levando-os todos no coração perante o Senhor. Lembremo-nos especialmente dos fracos, desalentados, os que cairam ou vivem mais distantes. Que nossos cuidados cerquem todo o rebanho. Vamos aos pontos mais afastados, lutando para que nenhuma localidade per­maneça sem os meios da graça, e sim que todos os terrenos recebam a chuva da influência do evangelho.
6. Existe algo que não deve ser esquecido: é preciso que jamais
tenhamos conivência com o mal.
Muitos têm a impressão de que podar a árvore significa cortá-la. Outros custam a aprender o que seja o equilíbrio das virtudes; não sabem matar um rato sem incendiar o celeiro. Será que ouvi alguém dizer: "Fui fiel; não posso compactuar com o mal"? Está bem; mas não ocorrerá que pelo seu mau gênio você chegue a causar um mal maior do que aquele que destruiu? Imagine­ mos que a mãe recomende à enfermeira que faça calar a criança, e a seguir ela jogue o menino pela janela. Obedeceu à senhora, silenciando eficazmente o garoto, mas por certo não será elogiada. Se num impulso imprudente vocês dão "o merecido" à congregação por não ser o que desejam que fosse, então considerem o seguinte: "Somos o que de­ veríamos ser?"
Se pela graça de Deus tenho ocupado posição elevada na Sua Igreja, a alcancei pelo poder da afabilidade e do amor, e procuro usar minha influência para o bem e o progresso da comunidade. Mas torno a dizer: não devemos permitir que o pecado persista sem correção . Cedam, irmãos, em todos os assuntos pessoais, mas mostrem firmeza no que toca à verdade e à santidade. Precisamos ser fiéis, para não incorrer na transgressão e no castigo de Eli. Sejam honestos para com os ricos e influentes, firmes para com os vacilantes; pois seu sangue lhes será requerido. Necessitarão de toda a sabedoria e graça que pos­sam alcançar para cumprir suas responsabilidades pastorais. Parece que certos pregadores carecem de habilidade para governar aos ho­mens, habilidade substituída pela capacidade de tocar fogo numa casa, pois espalham brasas e carvões acesos por onde vão. Não sejam como eles. Não combatam contra a carne e o sangue; todavia não façam acordos amistosos com o pecado.
7.       Alguns descuram das suas obrigações como mordomos de Cristo, esquecendo que o Senhor vem. "Ainda não", sussurram alguns; "há muitas profecias a serem cumpridas", raciocinam outros. E dizem: "inclusive, é possível que nem sequer venha; no sentido corrente do termo, não há pressa especial." Irmãos, é o servo infiel quem diz: "O Senhor tarda em vir." Esta crença o fará retardar a execução dos tra­balhos. O escravo não limpará a casa como obrigação diária, porque o senhor está distante; e o servo de Cristo pensa que poderá buscar uma boa limpeza, em forma de avivamento, antes que o Senhor chegue. Se cada um de nós lembrasse que qualquer dia pode ser seu último dia, todos nós seríamos mais intensos em nossos labor. Enquanto pregamos o evangelho, qualquer atividade pode ser interrompida pelo som da trombeta e o clamor: "Eis o noivo; saí a seu encontro!" (Mat. 25:6).
Tal esperança concorrerá para acelerar nossos passos. Os dias são curtos; Cristo está às portas; é preciso que trabalhemos com todas as nossas forças. Fico impressionado pela rapidez como corre o tempo, a veloz aproximação da audiência final. Breve estaremos dando contas da nossa mordomia; uns sobrevivem ainda algum tempo, enquanto outros vão sendo chamados a reunir-se ao Senhor. Convém que prossigamos trabalhando cada hora com a atenção voltada para a audiência a que nos dirigimos, a fim de não sermos envergonhados quanto ao registro dos nossos feitos no volume do livro.
Devemos orar muito acerca desta fidelidade no serviço, pois o castigo da infidelidade será terrível. Triste será a condição do mor­domo reprovado. Será infindável sua desgraça; sofrerá vergonha eterna e desprezo por trair ao Redentor. Não podemos sondar o abismo de terror das palavras de Cristo, referindo-Se ao servo infiel: "cortado ao meio, sua parte será com os hipócritas."
A recompensa de todos os mordomos fiéis é sobremaneira grande. Aspiremos a ela. O Senhor fará com que aquele que foi fiel em poucas coisas seja posto sobre muitas coisas. É extraordinária a passagem na qual o Senhor afirma: "Bem-aventurados os servos, os quais quando ele vier, achar velando: de certo vos digo, que se cingirá, e fará que se sentem à mesa, e passando os servirá." E maravilhoso que Ele nos tenha servido; mas, como podemos entender que vá servir-nos nova­mente? Pensem no Senhor Jesus levantando-Se do Seu trono para servir-nos! "Olhem!", exclama Ele, "aqui está um servo que Me serviu fielmente na terra; abri-lhe caminho, vocês anjos, domínios e potestades. Este é o homem a quem o Rei se deleita em honrar!" E, com surpresa de nossa parte, o Rei Se cinge e nos serve. Então nos disporemos a clamar: "Não seja assim, Senhor." Mas Ele deve e quer cumprir Sua palavra. Esta honra inefável será concedida a Seus verdadeiros servos. Feliz o homem que, depois de ter sido o mais pobre e depre­ciado dos ministros, é agora servido pelo Rei dos reis! Oxalá sejamos do número "dos que seguem ao Cordeiro onde quer que vá"! Irmãos, podem perseverar em sua firmeza? Beberão do Seu cálice e serão batizados com o Seu batismo? Recordem que a carne é fraca. As provas da época atual são especialmente sutis e graves. Clamem ao Forte pedindo fortaleza e ponham-se nas mãos do Seu amor onipo­tente.
Amados irmãos, é preciso que avancemos, custe o que custar, pois não podemos retroceder; não temos armaduras que cubram nossas costas. Cremos ter sido convocados para este ministério, e não pode­mos ser desleais ao chamado. Às vezes somos acusados de proferir coisas terríveis a respeito do inferno. Não vamos justificar todas as expressões usadas, todavia não temos ainda descrito uma desdita tão profunda como a que espera ao ministro infiel. O futuro dos perdidos ultrapassa qualquer conceito humano, quando considerado à luz das expressões usadas pelo próprio Senhor Jesus Cristo. As figuras quase grotescas utilizadas por Dante e os horrores descritos pelos pregadores medievais, não excedem à realidade ensinada pelo Senhor ao referir-Se ao verme que nunca morre e ao fogo que jamais se apaga. Ser lançado nas trevas exteriores, suspirar em vão por uma gota d'água fria ou ser cortado pelo meio, são horrores sem igual. E os homens correm esse risco! Sim, é mil vezes lastimável que qualquer ministro se arrisque desse modo; que qualquer ser mortal suba ao pináculo do templo e dali se arroje no inferno! Se hei de ser uma alma perdida, que o seja como ladrão, blasfemo e assassino, e não como um mordomo infiel ao Se­nhor Jesus Cristo. Isso é ser um Judas, um filho da perdição.
Ninguém é forçado a ser ministro, nem obrigado a escolher tão sagrado ofício. Na juventude aspiramos ao santo ministério e nos senti­mos felizes por alcançar o desejo. Se nos proponhamos ser infiéis a Cristo, não havia necessidade de subir a essa rocha sagrada com o objetivo de multiplicar os horrores de uma queda final. Poderíamos perecer suficientemente nos caminhos ordinários do pecado. Que ne­cessidade haveria de obter maior condenação? Terrível seria o resul­tado se isso é tudo que ganhamos de nossos preparativos e grandes esforços para adquirir conhecimentos. Meu coração e minha carne tremem enquanto considero a possibilidade de algum ministro entre nós ser culpável de traição ao que nos foi confiado e de deslealdade a seu Rei. Que nosso bondoso Senhor esteja de tal maneira conosco que, finalmente, sejamos limpos do sangue de todos. Será glorioso ouvir ao Mestre exclamar: "Bem está, servo bom e fiel."
Amém.

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