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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sermão - O Banquete de Satanás - Nº 225 - Spurgeon (1559)

/ On : 16:29/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.
O encarregado da festa chamou o noivo e disse: "Todos servem primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior é servido; mas você guardou o melhor até agora" (Jo 2.9,10).

O encarregado da festa falou mais do que pretendia dizer, ou seja: existe mais verdade em sua palavras do que ele mesmo poderia imaginar. Essa é a regra estabelecida para o mundo inteiro: "primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior é servido". Essa é a regra dos homens; e centenas de corações decepcionados não a lamentaram? Primeiro a amizade: língua untuosa, palavras mais macias que manteiga e, depois, a espada em punho. De início, Aitofel apresentou a Davi o prato nobre do amor e da bondade e, depois, o que é inferior, pois abandonou seu mestre, seu senhor, e tornou-se conselheiro do seu filho rebelde. Judas apresenta em primeiro lugar o prato da conversa agradável e bondade; o Salvador comia desse prato, e andava até a casa de Deus junto com Judas, e conversava docemente com ele; mas de­pois, veio a borra do vinho: "Aquele que partilhava do meu pão voltou-se con­tra mim" (Jo 13.18). Judas, o ladrão, traiu o Mestre e, assim, trouxe depois "o que é pior". Vocês acharam assim com muitos que considerava amigos.

No auge da prosperidade, enquanto
o sol brilhava e os pássaros cantavam — tudo era lindo e alegre e animado com você —, eles apresentavam o melhor vinho; mas depois de chegar a geada fria que fez morrer as flores, felás caíram das árvores, e seus riachos se cobriram de gelo, os amigos serviram o que é pior: abandonaram vocês e fugiram; deixaram-nos para trás na hora de perigo, e ensi­naram a grande verdade: "Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força" (Jr 17.5). E assim é no mundo inteiro — digo isso de novo — não meramente com os homens, mas também com a natureza. Ai de nós, o terra, se tu fosses tudo E nada existisse além;
Acaso este mundo não nos trata da mesma maneira? Na juventude, ele nos oferece o melhor vinho; nesse período temos os olhos cintilantes, os ouvidos sintonizados com a música; então, o sangue flui rapidamente através das veias, e o pulso bate alegremente; mas é só esperar um pouco, e virá o que é pior: "quan­do os guardas da casa temerem e os homens fortes caminharem encurvados; quando pararem os moedores por serem poucos, e aqueles que olham pelas janelas enxergarem embaçado [...] o som de todas as canções lhe parecer fraco [...] o gafanhoto for um peso e o desejo já não se despertar [...] e os pranteadores já vagueiam pelas ruas" (Ec 12.3-5). Primeiro, há a taça transbordante da juven­tude; depois, as águas estagnadas da velhice, a não ser que Deus lance naquela borra uma renovada inundação de seu amor bondoso e ternas misericórdias, de modo que a taça transborde e volte a cintilar com deleite. O cristão, não confie nos homens; não dependa das coisas do tempo presente, pois a regra dos ho­mens e do mundo é, para sempre: "primeiro, o melhor vinho e, depois que já beberam bastante, o vinho inferior é servido".
Agora, porém, vou apresentar-lhes duas casas de festa. Primeiro, vou con­vidá-los a olhar para dentro das portas da casa do Diabo, e vocês verão que ele obedece fielmente a esta regra; ele serve, em primeiro lugar, o bom vinho, e depois de as pessoas terem bebido bastante, e o cérebro ter ficado bem confuso pelo efeito do mesmo, passa a oferecer o que é pior. Depois de eu lhes ter con­vidado a olhar ali e a estremecer, e a prestar atenção à advertência, tentarei entrar com vocês na sala de banquete do nosso amado Senhor e Mestre Jesus Cristo, e a respeito dele poderemos dizer, como o encarregado da festa disse ao noivo: "Você guardou o melhor vinho até agora"; as festas de Jesus ficam cada vez melhores, e não piores; seus vinhos ficam cada vez mais ricos; seus quitutes são muito mais finos, e suas dádivas mais preciosas que antes. "Você guardou o melhor até agora

I. Primeiro, para a nossa advertência, vamos dar uma olhadela na casa de festa construída por Satanás; pois, do mesmo modo que a sabedoria construiu sua casa e levantou as sete colunas, também a insensatez tem seu templo e sua taberna de festas, para onde continuamente quer atrair os incautos. Olhem para dentro da casa dos banquetes, e eu lhes mostrarei quatro mesas, e os hóspedes que se sentam diante delas; e enquanto olharem para as mesas, verão os pratos sendo servidos, Verão sendo trazidas as taças de vinho, e as verão desaparecer, uma após outra e notarão que a mesma regra é válida nas quatro mesas: primeiro, o bom vinho, e depois, o inferior — sim, direi mais — depois, o que é o pior.
1. À primeira mesa para a qual peço a atenção de vocês, embora lhes im­plore que nunca parem para beber ali, está sentado o devasso. A mesa do devasso é bem enfeitada; a toalha é de carmesim brilhante, e todos os vasos parecem muito brilhantes e lustrosos. Muitas pessoas estão sentadas ali; mas ignoram ser hóspedes do inferno, e que no final a festa acabará nas profundezas da perdição. Estão vendo o grande encarregado da festa, ao entrar? Tem um sorriso afável no rosto; suas roupas não são escuras, veste roupas multicoloridas; tem nos lábios uma palavra melada e uma bruxaria tentadora no brilho dos olhos. Traz a taça e diz: "Olá, jovem, beba disso — cintila na taça e espumeja. Você vê? E a taça de vinho do prazer". Essa é a primeira taça da casa de banquetes de Satanás. O jovem aceita a taça, e beberica o conteúdo. De início, é um trago cauteloso, pois pretende tomar só um pouco e, depois, refrear-se. Ele não pretende permitir muita lascívia, não quer se lançar totalmente na perdição. Existe uma flor na beira do despenhadeiro: ele quer estender-se um pouco para colhê-la, mas não é sua intenção cair daquela penha tão alta e se destruir.
Ele não! Acha fácil afastar de si a taça depois de ter provado seu sabor! Não tem a intenção de ser entregar à embriaguez. Toma um gole leve. Mas como é doce! Como deixa o sangue formigar dentro dele! "Que bobo era por não ter provado isso antes", ele pensa. Já houve alegria igual a esta? Beba de novo; desta vez é um gole mais profundo, e o vinho ficará quente nas suas veias. Que felizardo! O que ele não falaria, agora, em louvor a Baco, Vênus, ou de qualquer forma que Belzebu desejar assumir? Ele se torna um verdadeiro orador a favor do pecado! É boa, é agradável, a profunda condenação da concupiscência parece tão alegre quanto os arrebatamentos do céu. Ele bebe, bebe e bebe de novo, até o cérebro começar a ficar tonto com a embriaguez do deleite pecaminoso. Esse é o primeiro prato servido. Sorvam, ó bêbados de Efraim, e ponham a coroa do orgulho sobre a cabeça (Is 28.1-3). Chamem-nos tolos porque afastamos de nós sua taça; bebam com a prostituta e jantem com o concupiscente; consideram-se sábios por fazer isso, mas nós sabemos que depois destas coisas vem algo pior, pois "a vinha deles é de Sodoma e as lavouras de Gomorra. Suas uvas estão cheias de veneno, e seus cachos, de amargura. O vinho deles é a peçonha das serpentes, o veneno mortal das cobras" (Dt 32.32,33).
Agora com expressão de maldade na testa, o encarregado sutil da festa levanta-se do assento. A vítima já recebeu bastante do vinho melhor. Ele leva embora a taça, mas não bem tão cintilante. Olhem para a bebida: não transborda com bolinhas espumejantes do enlevamento; está totalmente sem espuma, sem graça, e insípida; é chamada taça da saciedade. O homem já teve saciedade do prazer, e vomita como cachorro, embora, tal qual o cachorro, volte ao vômito. Para quem são os ais? Para quem são os olhos vermelhos? Para os que se detêm com muito vinho.
Agora falo de modo figurado do vinho, além de literalmente. O vinho da concupiscência produz a mesma vermelhidão dos olhos; o devasso não demora para descobrir que todo ciclo de prazer termina em saciedade. "Ora!", diz ele, "o que mais posso fazer? Olhe! Cometi toda iniqüidade imaginável; esvaziei todas as taças do prazer. Dêem algo novo! Já experimentei todos os teatros da região, e olhe: nenhum deles me vale um único tostão. Já freqüentei todos os prazeres que posso imaginar. Tudo acabou. A própria farra acaba sem gosto e tediosa. Que mais posso fazer?". Este é o segundo prato do Diabo — o prato da sa­ciedade — o torpor intermitente que resulta dos excessos anteriores.
Existem milhares de pessoas que bebem da taça insípida da saciedade todos os dias, e uma nova invenção com a qual pudessem desperdiçar o tempo, uma nova descoberta mediante a qual pudessem dar nova expressão à sua iniqüidade seria para eles uma coisa maravilhosa; e se surgisse alguém que pudesse descobrir para eles algum novo tipo de iniqüidade, profundezas maiores no fundo do inferno mais baixo da lascívia, abençoariam seu nome, por lhes ter dado uma novidade para animá-los. Esse é o segundo prato do Diabo. E vocês vêem como participam dele? Existem alguns que bebem profundamente dele nesta manhã. Vocês são os cavalos esgotados do demônio da concupiscência, os seguidores decepcionados do fogo-fátuo do prazer. Deus sabe que se falassem tudo o que têm no coração, seriam obrigados a dizer: "Vejam! Experimentei o prazer, e não o acho um prazer; terminei o circuito, e sou exatamente como o cavalo cego girando o moinho: obrigado a girar de novo. Estou enfeitiçado pelo pecado, mas não consigo me deleitar nele como antes, pois toda a sua glória é como a flor que murcha, e como a fruta têmpora antes do verão.
Durante algum tempo, o festeiro permanece no mar pútrido da enfatuação, mas outro cenário se apresenta. O encarregado da festa manda abrir outra bebi­da. Desta vez, o demônio traz uma taça negra, e a apresenta com os olhos cheios do fogo do inferno, raiando com perdição feroz. "Beba disso, senhor", diz ele, e o homem toma um gole, e recua com gritos: "Ó Deus! Eu cheguei a isso!". Está obrigado a beber, cavalheiro! Quem bebe a primeira taça, deve beber a segunda, e a terceira. Beba, embora seja como fogo descendo pela garganta! Beba, embora seja como a lava do Etna nas suas entranhas! Beba! Você deve beber! Quem peca deve sofrer; o devasso na juventude precisa ter podridão nos ossos, e enfermi­dade nos lombos. O rebelde contra as leis de Deus deve colher os resultados no próprio corpo. Oh! Existem algumas coisas terríveis que eu poderia lhes contar a respeito desse terceiro prato. A casa de Satanás tem uma sala de frente, cheia de coisas atraentes aos olhos e enfeitiça o gosto sensual; mas existe o quarto dos fundos, e ninguém o conhece, ninguém viu todos os seus horrores. Há uma câ­mara secreta, onde ele empilha com pás as criaturas destruídas por ele mesmo — uma câmara, e abaixo dela está aceso o fogo do inferno, a em cima das tábuas de assoalho o calor dessa cova terrível é sentido. Talvez seja mais adequado um médi­co contar os horrores que alguns precisam sofrer em decorrência da iniqüidade. Deixo isso de lado; mas permitam-me contar a respeito do devasso esbanjador, pois a pobreza que ele terá de sofrer resultará do pecado do esbanjamento ex­travagante; que ele conheça, também, o remorso da consciência que o alcançará não é uma coisa acidental que goteja por acaso do céu — é o resultado da sua iniqüidade; pois vocês podem ter certeza, homens e irmãos, de que o pecado já leva a desgraça como criancinha nas entranhas, e mais cedo ou mais tarde, dará à luz seu filho terrível. Se semearmos a semente, ceifaremos a colheita. Assim fica firme a lei da casa do inferno: "primeiro, o melhor vinho, e depois, o vinho inferior".
Falta apresentar o prato final. E agora, homens fortes, zombadores da ad­vertência que eu queria dar, com voz de irmão e com coração de afeição, mas com linguagem severa. Venham para cá a fim de beber dessa última taça. O pecador finalmente se dirigiu ao túmulo. Suas esperanças e alegrias foram como moedas de ouro colocadas em um saco furado, e todas desapareceram — sumiram para sempre, e agora está no fim; seus pecados o acossam, suas transgressões o deixam perplexo; ele está preso como um touro em uma rede, e como ele escaparia? Morre, e desce da enfermidade para a perdição. A linguagem mortal tentará contar-lhes a respeito dos horrores da última taça tremenda que o devasso deve beber, e beber para sempre? Olhem para essa taça; vocês não conseguem perceber sua profundeza, mas lancem o olhar para a superfície fervente, ouço o barulho do correr para cá e para lá, e o som como o ranger de dentes e o uivar de almas desesperadas. Olho para a taça, e ouço a voz subindo das profundezas: "Estes partirão para o castigo eterno"; pois "Tofete está pronta já faz tempo; foi preparada para o rei.
Sua fogueira é funda e larga, com muita lenha e muito fogo; o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre ardente, a incendeia" (Is 30.33). E o que vocês dirão desse último prato de Satanás? "Quem de nós pode conviver com o fogo consumidor? Quem de nós pode conviver com a chama eterna?" (Is 33.14). Devasso! Rogo-lhe em nome de Deus, afaste-se dessa mesa! Oh, não seja tão descuidado na sua embriaguez; não fique tão adormecido, seguro na paz da qual você agora desfruta! Homem, a morte está à porta, e atrás dele segue veloz a destruição. Quanto a você, que por enquanto foi refreado pelo pai cuidadoso e pela vigilância da mãe ansiosa, rogo-lhe que evite totalmente a casa do pecado e da insensatez. Que fiquem escritas no seu coração as palavras do sábio, e lembre-se delas na hora da tentação: "Fique longe dessa mulher, não se aproxime da porta da sua casa [...] Pois os lábios da mulher imoral destilam mel; sua voz é mais suave que o azeite, mas no final é amarga como fel, afiada como uma espada de dois gumes. Os seus pés descem para a morte; os seus passos con­duzem diretamente para a sepultura' (Pv 5.8,3-5).
2. Vocês vêem a outra mesa ali no meio do palácio? Ah, almas boas e à vontade! Muitos de vocês imaginam nunca ter ido à festa do inferno; mas há uma mesa para vocês, também; está coberta por uma linda toalha branca, e todos os vasos em cima dela são bem limpos e bonitos. O vinho não parece ser o vinho de Gomorra, escorre suavemente, como o vinho das uvas de Escol; parece não ter capacidade inebriante; é como o vinho antigo, quando as uvas eram espremidas na taça, e que não continha nenhum veneno fatal. Vocês estão vendo os homens sentados diante desta mesa? Como parecem satisfeitos consi­go! Perguntem aos demônios brancos que servem a mesa, e eles lhes dirão: "Este é a mesa dos satisfeitos consigo mesmos: ali está sentado o fariseu. Você talvez o conheça; ele está com o filactério entre os olhos; a fímbria da sua veste é feita muitíssimo larga; é um dos que fazem mais profissão da sua fé". "Ah!", diz Satanás, ao fechar a cortina e bloquear a vista da mesa onde os devassos fazem pândega, "fiquem quietos, não façam barulho excessivo, para não deixar os hipócritas santarrões imaginar em qual convívio estão. Essas pessoas, tão justas em si mes­mas, são meus hóspedes tanto quanto vocês, e os mantenho com igual segurança nas minhas garras". Assim Satanás, como se fosse anjo da luz, apresenta a taça dourada, que parece o cálice da mesa de comunhão. E que vinho é aquele? Parece o próprio vinho da santa ceia; é chamado o vinho do convencimento, da satis­fação consigo mesmo, e ao redor da borda vocês podem perceber as bolhas do orgulho. Olhem a espuma que se engrossa na taça: "Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros, nem mesmo como este publicano" (Lc 18.11).
Vocês conhecem essa taça, meus ouvintes que se enganam a si mesmos; quem dera soubessem quanta cicuta mortífera está misturada nela. "Pecar como fazem os demais? Não vocês; de jeito nenhum. Não se submetam à justiça de Cristo; que necessidade vocês têm disso? São tão bons como o próximo; pensam que se não forem salvos, merecem sê-lo. Vocês não são honestos com dinheiro? Já roubaram a alguém na sua vida? Fazem favores aos vizinhos; são bons como outras pessoas". Muito bem! Essa é a primeira taça que o Diabo oferece, e o vinho bom o deixa insuflado com sua dignidade de importância, à medida que os vapores lhe enchem o coração e o insuflam com a soberba maldita. Sim! Vejo você sentado no aposento tão bem varrido e tão bem arrumado, e vejo as multidões dos seus admiradores em pé ao redor da mesa, incluindo muitos filhos de Deus, que dizem: "Quem dera eu fosse tão bom quanto ele". Enquanto isso, a própria humildade dos justos lhe fornece alimento para o orgulho. Espere um pouco, hipócrita melífluo, espere um pouco, pois vem o segundo prato. Satanás contempla, desta vez, seus hós­pedes com ares tão triunfantes quanto adotou para olhar sua tropa de farristas. "Ah!", diz ele, "enganei os indivíduos festeiros com a taça do prazer — depois, dei-lhes a taça pouco saborosa da saciedade, e os consegui ludibriar, também; vocês se consideram muito bem, mas os enganei duas vezes. Realmente deixei-os embriagados". E assim traz uma taça que, às vezes, ele mesmo não gosta de servir. E chamada a taça do descontentamento e inquietude mental e muitas pessoas precisam bebê-la depois da satisfação consigo mesmas. Vocês não desco­brem ser tão excepcionalmente bons na própria estimativa, mas não têm parte em Cristo, e quando estão sozinhos começam a examinar a contabilidade para a prestação de contas na eternidade, que, de alguma maneira, débito e crédito não estão bem equilibrados; vocês não conseguem o saldo positivo que imaginavam ter a seu favor, afinal, não saiu como imaginavam? Não descobriram que, achando estar em pé na rocha, havia algum estremecimento debaixo dos seus pés? Vocês ouviram os crentes cantar com coragem:
Ficarei em pé com ousadia naquele dia,
Pois quem lançará acusações contra mim?
Pois estou absolvido mediante o teu sangue
Da tremenda maldição e vergonha do pecado.

E vocês dizem: "Ora, não posso cantar isso. Tenho sido membro tão fiel da igreja quanto já houve, nunca faltei na minha igreja durante todos estes anos, mas não posso dizer que tenho sólida confiança". Anteriormente, você tinha a esperança da satisfação em si mesmo, mas agora foi apresentado o segundo prato, e não se sente tão contente. "Pois bem", diz outro, "sempre, freqüentei a capela, fui batizado e fiz a profissão de fé, embora nunca tivesse sido levado a conhecer o Senhor na sinceridade e verdade, e pensava, no passado, que tudo estava bem comigo, mas me falta algo que não consigo achar". Agora surge um estremeci­mento no coração. Não é bem tão delicioso quanto se supunha o edificar sobre nossa retidão. Ah! E esse o segundo prato que está sendo servido! Espere mais um pouco, e talvez neste mundo, mas certamente na hora da morte, o Diabo trará a terceira taça, a da consternação ao descobrir apropria condição de perdido. Quantas vezes o homem confiante na própria justiça durante toda a vida acabou descobrindo, no fim, que aquilo em que fixava a esperança lhe faltou. Ouvi falar de um exército, o qual, sendo derrotado na batalha, esforçou-se para fazer uma boa retirada. Os soldados, com o máximo empenho, fugiram até certo rio, onde esperavam encontrar uma ponte através da qual pudessem chegar à outra margem em segurança. Mas quando alcançaram o rio, ouviu-se um grito de terror: "A ponte está quebrada, a ponte está quebrada!". Será em vão você virar para trás. A morte o segue de perto, e ela o força para frente, e conhece o que é perecer, por ter negligenciado a grande salvação, e de ter tentado salvar a si mesmo medi­ante suas obras. Este é o penúltimo prato: e o último prato, o pior vinho, a porção eterna, forçosamente será idêntico ao do devasso. Pois mais virtuoso que você se considerasse, a ponto de orgulhosamente rejeitar a Cristo, terá que beber do cálice da ira de Deus; o cálice cheio de tremedeira. Os ímpios desta terra terão de extrair a última borra desse cálice, e bebê-la; e você também deverá beber dele tão profundamente quanto eles. Oh! Acautelem-se em tempo hábil! Deixem de lado os olhares altaneiros, e humilhem-se sob a poderosa mão de Deus. Creiam no Senhor Jesus Cristo, e vocês serão salvos.
3. Alguns de vocês ainda escaparam das chicotadas, mas existe a terceira mesa superlotada de hóspedes muitíssimo honrosos. Acredito que tenha havido mais príncipes e reis, prefeitos e vereadores, bem como grandes comerciantes, sentados à essa mesa, que a qualquer outra. E chamada a mesa do mundanismo. "Hum!", diz certo homem. "Eu, por mim, não gosto do devasso; tenho meu filho mais velho, e estou trabalhando duro, economizando dinheiro durante toda a vida, e aí está o jovem que não quer ficar firme no serviço; ele se tornou o verdadeiro devasso. Estou muito contente que o ministro falou com tanta severidade quanto a isso. Quanto a mim, posso dizer que não dou um tostão de valor à gente justa aos próprios olhos; para mim, isto não serve para nada; não me importo no mínimo com a religião; gosto de saber se o saldo em caixa está subindo ou descendo, ou se existe a oportunidade de fazer uma boa barganha; mas o que passar disso, pouco me importa". Ah, mundano, li a respeito de um amigo seu, que se vestia de escarlate e de linho fino, e que banqueteava suntuosa-mente todos os dias. Você sabe qual fim ele levou? Deve se lembrar disso, pois o mesmo fim o aguarda. O fim da festa dele será o mesmo fim da sua festa. Se este mundo for seu deus, você pode ter a certeza de que o caminho será cheio de amargura. Agora, olhe para a mesa do homem deste mundo, do mundano que só vive pelo próprio lucro.
Satanás lhe traz uma taça transbordante. "Aqui está", diz ele. "Jovem, você está se lançando no mundo dos negócios; não precisa se importar com as convencionalidades da honestidade, nem com as imaginações comuns, mas anti­quadas, da religião; fique rico tão rapidamente quanto puder. Consiga dinheiro — consiga dinheiro — de modo honesto se possível, mas, se não, obtenha-o de qualquer jeito", diz o Diabo, e coloca o canecão na mesa. "Aqui", diz ele, "estão uns bons tragos espumejantes". "Sim", diz o jovem, "Tenho abundância agora. Minhas esperanças já se realizaram". Aqui, pois, vocês estão vendo o primeiro vinho, e o melhor, do mundano, e muitos de vocês são tentados a invejar esse homem. "Quem dera que eu tivesse semelhantes perspectivas nos negócios", diz ele, "não tenho a metade de astúcia dele, e não posso negociar como ele, pois minha religião não o permite. Mas como enriquece rapidamente! Bem que eu queria prosperar tanto quanto ele!". Venha, meu irmão, não julgue antes do tempo, pois ainda virá o segundo prato, a bebida grossa e nauseante da preocu­pação.
O homem conseguiu dinheiro, mas quem quer ser rico cai em uma ten­tação e em uma armadilha. As riquezas ganhas desonestamente, ou mal gastas, ou acumuladas de forma egoísta, trazem consigo corrupção — não se trata de corromper o ouro e a prata, mas corrompe o coração do homem, e o coração corrupto é uma das coisas mais terríveis que o homem pode ter. Ah, vejam esse amante do dinheiro, e notem os cuidados que lhe pesam no coração. Há uma velhinha pobre, que mora perto do portão da casa de campo dele. Ela recebe uma insignificância por semana, mas diz: "Bendito seja o Senhor, tenho bastante!". Ela nunca pergunta como ela vai viver, ou como ela vai morrer, ou como ela será enterrada, mas dorme docemente no travesseiro do contentamento e da fé; e por outro lado, há esse miserável tolo com ouro além da conta, mas se sente desgraçado porque caiu uma moedinha de prata do seu bolso quando andava pelas ruas, ou que houve um apelo adicional à sua caridade, que se sentiu obriga­do a aceitar por causa da presença de algum amigo; ou talvez gema porque seu casaco se desgasta cedo demais.
Depois disso, vem a avareza. Muitos tiveram de beber dessa taça; mas que Deus salve cada um de nós das gotas fogosas. Um grande pregador americano disse: "A cobiça gera grande desgraça. A vista de casas melhores que as nossas, de rou­pas além do nosso alcance financeiro, de jóias mais caras do que podemos usar, de equipagens nobres, de raras curiosidades além do nosso alcance, tais coisas fazem nascer a ninhada dos pensamentos cobiçosos; é vexame para os pobres, que gostariam de ser ricos; atormenta os ricos, que querem ser mais ricos. O cobiçoso lamenta ao ver prazer; está triste na presença de bom ânimo; e a alegria do mundo é tristeza dele, porque toda a felicidade dos demais não lhe pertence. Não me admira que Deus se aborrece dele. Deus inspeciona o coração dele como se este fosse uma caverna cheia de aves imundas, ou um ninho de cascavéis que chacoalham, e abomina a visão dos habitantes rastejantes ali. Para o cobiçoso, a vida é um pesadelo, e Deus o deixa vir a braços com ela da melhor maneira que conseguir. Mamom pode edificar seu palácio em semelhante coração, e o Prazer pode levar para lá todas as suas festanças, as Honrarias podem levar suas guirlandas — mas tudo seria como o prazer em uma sepultura, e guirlandas em um túmulo. Quando alguém se torna avarento, tudo o que possui é nada. "Mais, mais, mais!", diz ele, como certos pobres coitados em uma febre terrível, que exclamam: "Bebida, bebida, bebida!", e você lhes dá bebida, mas depois de a beber, a sede aumenta. Como a sanguessuga, gritam: "Dá, dá, dá!". A avareza é uma loucura frenética que procura agarrar o mundo inteiro nos braços, porém despreza á abundância já possuída. Essa é a maldição que já levou muitos à morte; e alguns morrem com o saco de ouro nas mãos, com olhares de angústia por não poderem levá-lo ao caixão, nem carregá-lo para outro mundo.
Pois bem segue-se, então, o prato seguinte. Baxter, e outros pregadores antigos que inspiravam reverente temor, retratavam o avarento, e quem vivia somente para ganhar ouro, no meio do inferno; e imaginavam Mamom derramando ouro derretido pela garganta dele: "Tome", dizem os demônios zombadores, "é isso que você queria, e agora o recebeu; beba, beba, beba!" e o ouro derretido é derramado na garganta. Eu, porém, não vou me permitir tão terríveis imagi­nações, mas este tanto eu sei: quem vive para si mesmo aqui, deve perecer; quem tem o afeto fixo nas coisas desta terra, não cavou profundamente — edificou a casa na areia; e quando as chuvas descerem e as inundações subirem, a casa virá abaixo, e grande será sua queda. No entanto, trata-se do melhor vinho primeiro: é o homem respeitável, — respeitável e respeitado, — todos o honram — e depois, o inferior, depois de a mesquinhez ter transformado suas riquezas em mendicância, e a cobiça ter enlouquecido seu cérebro. Isto acontecerá com certe­za, tão certamente quanto você se entrega ao mundanismo.
4. A quarta mesa é posta em um cantinho muito discreto, em um local muito privativo do palácio de Satanás. Ali está a mesa para os pecadores secretos, onde é observada a antiga regra. Àquela mesa, em uma sala bem escurecida, hoje vejo um jovem sentado, e Satanás é quem serve, e entra com passos silenciosos que ninguém escutaria. Traz a primeira taça — como é doce! É a taça do pecado secreto. "A água roubada é doce, e o pão que se como escondido é saboroso!" (Pv 9.17). Quão doce é esse quitute, comido a sós! Houve outro que rolava tão delicadamente debaixo da língua? Aquele é o primeiro; a seguir, ele traz outro — o vinho da consciência inquieta. Os olhos do homem se abrem. Ele diz: "O que fiz? O que andei fazendo?", exclama este Acã, "quanto à primeira taça que me trouxe, naquela viu reluzindo um lingote de ouro puro, bem como uma boa capa da Babilônia; e pensei comigo: 'Preciso ter aquilo'; mas agora meu pensa­mento é: 'Como farei para esconder isso, onde o porei?'. Preciso escavar. Sim, preciso escavar tão profundo como o inferno antes de conseguir escondê-lo, pois será descoberto com certeza".
O sinistro encarregado da festa traz uma bacia enorme, cheia de uma mistu­ra negra. O pecador oculto bebe, e fica confundido; teme que seu pecado o ache. Não tem paz, nem alegria, fica cheio de temores; tem medo de ser detecta­do. Sonha à noite que alguém está atrás dele; há uma voz sussurrando no seu ouvido: "Sei tudo a respeito; vou contar". Pensa, talvez, que o pecado cometido em secreto será conhecido aos amigos; o pai e a mãe ficarão sabendo. Sim, até o médico pode repetir a história, e mexericar o segredo desgraçado. Para semelhante
homem, não há repouso. Está sempre com pavor de ser preso. E como o deve­ dor a respeito de quem li; devia muito dinheiro, e temia que os oficiais da justiça estivessem atrás dele; e, quando certo dia aconteceu que sua manga se prendeu momentaneamente em um grade, disse: "Olhe, me solte; estou com pressa; vou lhe pagar amanhã", imaginando que alguém estivesse pegando nele.
E em uma situação assim que se coloca quem participa das coisas ocultas da desonestidade e do pecado. Assim, não acha repouso para planta dos pés, pelo medo de ser descoberto. Finalmente, surge a descoberta; 4 a taça final. Muitas vezes, isso acontece na terra; tenha certeza de que seu pecado o achará, e o achará aqui. Que exibições pavorosas podem ser vistas nas delegacias, dos homens obriga­
dos a beber o trago negro da descoberta.       
O homem que presidia nos cultos religiosos, honrado como santo, é final­mente desmascarado. E o que diz o juiz — e o que diz o mundo ao seu respeito? Ele é uma piada, e um opróbrio, e uma repreensão em todos os lugares. Mas suponhamos que seja tão astuto a ponto de conseguir passar pela vida sem ser descoberto — embora considere isso quase impossível. Que taça ele terá de beber quando finalmente comparecer diante do tribunal de Deus! — "Traga-o para fora, carcereiro! Temido encarregado da masmorra do inferno, conduza o prisioneiro para fora!". Ele vem! E o mundo inteiro reunido. "Fique em pé, homem! Você não fez uma profissão de fé ou de religião? Todos não pensavam ser um santo?". Mas há muitas pessoas na vasta multidão que exclamam: "Nós o considerávamos assim". O livro é aberto, suas ações são lidas: uma transgressão após outra é desnudada. Ouvem a vaia? Os justos, movidos à indignação, levan­tam a voz contra o homem que os enganou, e que habitava entre eles como um lobo em pele de cordeiro. Oh, quão pavoroso deve ser agüentar o desprezo do universo! Os bons conseguem suportar o desprezo dos ímpios, mas para os ímpios, suportar a vergonha e desprezo eternos que a justa indignação empilhará sobre eles, será uma das coisas mais pavorosas, fora da duração eterna da ira do Altíssimo, a qual, não preciso acrescentar, é a última taça da festa terrível do Diabo, que o pecador oculto precisa beber até o fundo, para todo o sempre.
Agora faço uma pausa, mas só para recuperar minhas forças e implorar que qualquer coisa que eu tiver dito, e que tenha a mínima aplicação pessoal aos ouvintes, não seja esquecida. Rogo-lhes, homens e irmãos, caso comam agora a gordura e bebam as doces bebidas do banquete do inferno, façam uma pausa e reflitam sobre o que será o fim. "Quem semeia para a sua carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna" (Gl 6.8). Para esse aspecto, não posso gastar mais tempo aqui.

II. Por outro lado, vocês devem me perdoar enquanto ocupo uns poucos minutos em levá-los à Casa do Salvador, onde ele festeja seus amados. Venham sentar-se conosco à mesa de Cristo das providências exteriores. Ele não festeja seus filhos segundo o modo do príncipe das trevas: pois a primeira taça que Cristo lhes traz é muitas vezes a taça da amargura. Ali estão seus filhos amados, os próprios redimidos, que recebem pouca coisa para os animar. Jesus traz a taça da pobreza e da aflição, e faz os próprios filhos beberem dela, até dizerem: "Fez-me comer ervas amargas e fartou-me de fel" (Lm 3.15). E assim como Cristo começa. O pior vinho primeiro. Quando o sargento começa com um novo recruta, dá-lhe uma moeda de prata, e depois, posteriormente, há as marchas e a batalha. Mas Cristo não trata assim seus recrutas. Estes devem calcular o preço, a fim de não começar a construir sem poder terminar. Ele procura não ter dis­cípulos deslumbrados com as primeiras aparências. Começa com eles de modo severo, e muitos filhos descobrem que o primeiro prato na mesa do Redentor é aflição, tristeza, pobreza e necessidade.
Nos tempos antigos, quando os melhores entre o povo de Deus estavam à mesa, ele lhes servia o pior, pois perambulavam em peles de ovelhas e cabritos, necessitados, aflitos, atormentados, dos quais o mundo não era digno, e continu­avam bebendo dessas taças amargas durante muitos dias; mas quero lhes contar que depois ele lhes ofereceu taças mais doces, e vocês que já sofreram aflições têm tido essa experiência. Depois da taça da aflição, vem a taça da consolo, e como ela é doce! E privilégio destes lábios beber dessa taça depois da enfermi­dade e da dor; e posso testificar que falei ao Mestre: "Guardaste o melhor vinho até agora". Era tão delicioso que seu sabor removeu todo vestígio da amargura e tristeza; e falei: "Certamente já passou toda a amargura desta doença, pois o Senhor se manifestou a mim e me deu do seu melhor vinho". No entanto, amados, o melhor vinho está para vir no fim. O povo de Deus o achará assim externamente. O pobre santo chega a morrer. O mestre lhe deu a taça da pobreza, mas agora o crente não mais bebe dela, ele é rico em todos os sentidos da bem-aventurança. Ele já bebeu da taça da enfermidade, mas agora não mais beberá dela. Já teve a taça da perseguição, mas agora está glorificado, junto com seu Mestre, com quem agora se senta no trono. Nas circunstâncias exteriores, as melhores coisas lhe chegaram em último lugar.
Certa vez, dois mártires foram queimados em Stratordle Bow; um deles era manco, e o outro cego, e quando estavam sendo amarrados à estaca, o man­co pegou na sua muleta e o lançou no chão, e disse ao outro: "Anime-se, irmão, este é o remédio amargo que nos curará; daqui a uma hora, não serei manco e você não será cego". Não, porque as melhores coisas estavam para vir no fim. Muitas vezes pensei que o Filho de Deus é bem semelhante aos cruzados. Os cruzados iniciaram sua viagem, e tiveram que lutar passo a passo por muitas milhas de território inimigo, e marchar por muitas léguas de perigos. É possível que vocês se lembrem, da História escolar, que conta como, ao chegarem os exércitos do duque de Bouillon até onde conseguiram ver Jerusalém, desceram rapidamente dos cavalos, bateram palmas, e exclamaram: "Jerusalém, Jerusalém, Jerusalém". Esqueceram-se de todas as labutas, de toda a canseira da viagem, e de todas as feridas, pois ali jazia Jerusalém avista deles. E como os santos exclama­rão no fim: "Jerusalém, Jerusalém", depois de acabar toda a tristeza, pobreza e enfermidade, e eles serão abençoados com a imortalidade. O vinho inferior — o ruim, vou dizer? Não, o vinho amargo é tirado, e o melhor vinho é apresentado, e o santo se vê glorificado para sempre com Cristo Jesus.
E agora, nos sentaremos à mesa da experiência interior. A primeira taça que Cristo traz a seus filhos, quando estiverem assentados àquela mesa, é tão amarga que, talvez, nenhuma língua possa descrevê-la, — é a taça da convicção. E uma taça negra, cheia da mais intensa amargura. O apóstolo Paulo bebeu um pouco dela, mas ela era tão forte que o deixou cego durante três dias. A convicção do pecado dominou-o totalmente; só lhe restava dedicar a alma ao jejum e à oração, e foi somente ao beber da taça seguinte que as escamas caíram dos seus olhos. Eu já bebi a primeira taça, filhos de Deus, e achava que Jesus não fosse bondoso comigo, mas, dentro de pouco tempo, ele me serviu uma taça mais doce, a taça do amor perdoador, cheia do rico carmesim do seu sangue precioso. Oh, o sabor desse vinho está na minha boca até essa mesma hora, pois seu sabor é como do vinho do Líbano — guardado longo tempo no tonel. Você não se lembra, quando, depois de ter bebido da taça da tristeza, Jesus veio e lhe mos­trou suas mãos e o lado, e disse: "Pecador, eu morri e me entreguei por você; você crê em mim?". Você não se lembra de como creu, bebericou da taça, e como creu de novo e tomou um gole mais profundo, e disse: "Bendito seja o nome de Deus a partir de agora e para sempre, e que a terra inteira diga: amém, porque despedaçou as portas de bronze e rompeu as trancas de ferro, e soltou os cativos?". Desde então, o glorioso Mestre lhe tem dito: "Amigo, suba mais!" e ele o levou para os assentos superiores nas melhores salas, e lhe dá coisas mais doces. Não vou contar-lhes, hoje, a respeito do vinho que beberam.
A amada no Cântico dos Cânticos de Salomão pode suprir a deficiência do sermão desta manhã. Ela bebeu do vinho aromatizado das romãs; e assim tam­bém vocês, nos momentos sublimes e felizes nos quais tiveram comunhão com o Pai, e com o seu Filho Jesus Cristo. Porém, fiquem mais um pouco, pois ele ainda guardou o melhor vinho. Vocês não demorarão a se aproximar das riban­ceiras do Jordão, e então começarão a beber do vinho velho do reino, guardado em barris desde a fundação do mundo. A vindima da agonia do Salvador; a vindima do Getsêmani será deslacrada para vocês, o vinho velho do reino. Vocês chegaram à terra de "Beulá", e começam a desfrutar do pleno sabor dos vinhos guardados no sedimento e bem refinados. Vocês sabem como Bunyan descreve o estado que forma fronteira com o vale da morte.
Era uma terra onde flui leite e mel; um país onde os anjos vinham muitas vezes visitar os santos, e trazer fardos de mirra da terra das especiarias. E agora que você deu o grande passo, o Senhor coloca o dedo nas suas pálpebras e, com beijos, faz a alma sair pelos lábios. Onde vocês estão agora? Em um mar de amor, vida, bem-aventurança e imortalidade. "Ó Jesus, Jesus, Jesus, tu realmente tens guardado o melhor vinho até agora! Meu Mestre! Já te vi nos Dias do Senhor, mas este é um eterno Dia do Senhor. Já te encontrei na congregação, mas esta congregação nunca será desfeita. Ó meu Mestre! Já vi as promessas, mas este é o cumprimento. Já te bendisse por tuas graciosas providências, mas esta é maior que todas aquelas: tu me deste graça, mas agora me deste glória; antes, eras meu escudo, mas agora és meu sol. Estou à tua destra, onde há plenitude de alegria para sempre. Conservaste teu melhor vinho até agora. Tudo o que já tive antes era como nada, por comparação com isso".
E, em último lugar, pois somente o tempo me falta, senão, poderia pregar durante uma semana a respeito desse assunto. A mesa da comunhão é onde os filhos de Deus devem sentar-se. A primeira coisa que devem beber ali, é da taça da comunhão com Cristo nos seus sofrimentos. Se você quiser chegar à mesa da comunhão com Cristo, deve beber, em primeiro lugar, do vinho do Calvário. Cristão, sua cabeça deve ser coroada com espinhos. Suas mãos precisam ser traspassadas — não me refiro a pregos, mas você deve ser crucificado espiritualmente com Cristo. Devemos sofrer com ele, senão, não poderemos reinar com ele; precisamos labutar com ele primeiro, devemos participar do vinho que seu Pai lhe deu de beber, senão, não poderemos ter esperança de chegar até a parte melhor da festa.
Depois de bebermos do vinho dos seus sofrimentos, e de continuarmos a beber dele, devemos beber da taça das suas labutas, devemos ser batizados no seu batismo, esforçamo-nos para conquistar almas, e simpatizar com ele na am­bição do seu coração — a salvação dos pecadores —, e depois disso, ele nos dará de beber da taça das honrarias antecipadas. Aqui na terra, teremos vinho bom na comunhão com Cristo na sua ressurreição, nos seus triunfos e nas suas vitórias, mas o melhor vinho será servido no fim. Ó câmaras da comunhão, suas portas me foram abertas; mas só consegui dar uma olhadela dentro delas; mas está chegando o dia em que essas portas girarão nos gonzos de diamante, e ficarão escancaradas para todo o sempre; e entrarei no palácio do rei e não sairei mais. O cristão! Em breve verá o Rei na sua formosura; encostará a cabeça no seu peito; não demorará para se sentar aos pés dele com Maria; daqui a pouco, você fará como fazia a amada, e o beijará com os beijos dos seus lábios, e sentirá que o seu amor é melhor que o vinho. Posso imaginar vocês, irmãos, no momento final da vida, ou melhor, no primeiro momento da vida, dizendo: "Ele guardou o melhor vinho até agora". Quando começar a vê-lo faze a face, quando entrar na mais estreita comunhão com ele, com nada para perturbar nem para distrair a sua atenção, então você dirá: "O melhor vinho foi guardado até agora".
Certo santo estava a ponto da morte, e outro, sentado a seu lado, disse: "Adeus, irmão, nunca o verei de novo na terra dos viventes". "Oh", disse o moribundo, "vou revê-lo na terra dos viventes lá em cima; fica aqui a terra dos moribundos". Oh, irmãos e irmãs, se nunca mais nos encontramos na terra dos moribundos, temos a esperança de nos encontrarmos na terra dos viventes, e beberemos o melhor vinho no fim. 



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