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terça-feira, 23 de março de 2010

O Velho Evagelho para o novo Século (Sermão Nº 2708) - Spurgeon

/ On : 09:35/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Mt 11:28


Sem dúvida, vocês já escutaram muitos sermões que tiveram como base este texto. Eu mesmo o utilizei, não sei quantas vezes - entretanto, não as vezes suficientes como queria fazê-lo, se Deus me desse vida. Este versículo é uma daquelas grandes e inesgotáveis fontes de salvação das que podemos extrair um conteúdo de maneira permanente, sem que cheguem a extinguir-se. Um provérbio nosso diz: “as fontes mais usadas são as mais doces”. E, quanto mais remexemos um texto como este, mais doce e cheio de significado se tornará.

Nesta ocasião, vou utilizar este versículo de uma maneira especial, para extrair um só ponto do seu ensino. Poderia falar, se assim o quisesse, do repouso que Jesus Cristo dá ao coração, à mente e à consciência daqueles que acreditam nEle. Este é o repouso, este é o refrigério que encontram aqueles que vêm a Ele, já que podemos ler no texto: “eu os aliviarei”. Teria um tema muito doce se falasse sobre o maravilhoso alívio, do divino refrigério, do bendito repouso que chega ao coração quando há fé em Jesus Cristo. Que vocês todos experimentem essa bênção, queridos amigos! Que o vosso repouso e a vossa paz sejam muito profundas! Que não seja um descanso fingido, mas um descanso que resista às provas e aos escrutínios! Que o vosso repouso seja duradouro! Que a vossa paz seja como um rio que nunca deixa de correr! Que a vossa paz seja sempre uma paz segura, não uma paz falsa, cujo fim é a destruição! Que seja uma paz verdadeira, sólida, justificável, que resista durante toda a vossa vida e que por fim se dilua no repouso de Deus, à Sua mão direita, por toda a eternidade! Bem-aventurados os que descansam assim em Cristo! Esperamos contar-nos entre eles - e se assim for, que possamos penetrar da maneira mais profunda no Seu glorioso repouso.

 
Também, poderia falar, queridos amigos, a respeito das diversas maneiras nas quais o Senhor dá descanso aos Crentes. Poder-me-ia dirigir, especialmente, a alguns de vocês que, sendo crentes, não conseguem obter o descanso prometido. Alguns de nós trabalhamos em excesso com as coisas deste mundo, ou, somos atribulados pelos nossos próprios sentimentos. Encontramo-nos perplexos e sacudidos daqui para acolá por dúvidas e temores. Deveríamos estar descansando, já que “os que acreditamos, entramos no repouso”. O repouso nos pertence por direito—“Sendo justificados pela fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. Mas, por uma ou outra razão, alguns dos que são assim justificados não parecem alcançar esta paz, nem gozar do repouso como deveriam. Talvez, enquanto falo, possam encontrar a causa pela qual não obtêm a paz e o repouso que deveriam ter. Certamente, o nosso Senhor Jesus Cristo, quando pronunciou as palavras do nosso texto, não falou para um grupo em particular. A todos os que estão cansados e sobrecarregados - quer sejam Cristãos amadurecidos ou gente inconvertida - Ele diz: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.” Certamente me regozijarei se, como resultado do meu sermão, alguns que estão tensos e lamurientos, talvez com um espírito decaído e um coração oprimido venham novamente a Cristo, aproximando-se a Ele uma vez mais, entrando em contato novamente com Ele, e assim encontram descanso para as suas almas. Então, será duplamente doce estar sentado à Mesa da Comunhão, descansando em todo momento —repousando e festejando — não de pé, com os lombos cingidos e com o bastão na mão, como o fizeram aqueles que participaram da Páscoa no Egito — mas repousando, como o fizeram aqueles que participaram da Último Ceia, quando o Mestre estava reclinado no meio dos Seus apóstolos. Portanto, que as vossas cabeças repousem espiritualmente sobre o Seu peito e que os vossos corações encontrem refúgio nas Suas feridas, enquanto O ouvis dizer-vos outra vez: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”
 
Entretanto, não é a respeito dessa verdade em particular sobre a qual vos falarei hoje. Quero tomar somente este pensamento — a Glória de Cristo, de maneira que Ele nos possa dizer algo assim — o esplendor de Cristo, para que seja possível que Ele diga: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Estas palavras, saídas da boca de qualquer outro ser humano, seriam ridículas, chegando até à blasfêmia. Pensemos no poeta mais inspirado, no maior filósofo, o rei mais poderoso, mas quem, até com a alma maior, se atreveria a dizer a todos os que estão fatigados e carregados em toda a raça humana: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar”? Onde há asas tão largas que possam cobrir a toda alma entristecida, exceto as asas de Cristo? Onde há uma baía com a capacidade suficiente para conter todos os navios do mundo, para refugiar a cada navio sacudido pela tempestade que alguma vez tenha sulcado o mar? Onde, a não ser no refúgio da alma de Cristo, em quem habita toda a plenitude da Deidade! E, portanto, em quem há espaço e misericórdia suficientes para todos os afligidos filhos dos homens!

Esse será, então, o sentido da minha mensagem. Que o Espírito de Deus, por Sua graça me ajude a apresentá-lo!
 
I. Primeiro, fixemos a nossa atenção nas PERSONALIDADES DESTA CHAMADA: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Se esquadrinharmos o texto cuidadosamente, notaremos que há uma dupla personalidade envolta na chamada. É: “Vinde todos os que… — vinde todos os que... — a mim — e eu vos darei descanso.” Trata-se de duas pessoas que se aproximam entre si, uma outorgando e a outra recebendo o descanso. Mas não é, de maneira nenhuma, uma ficção, um produto da imaginação, um fantasma, um mito. Sóis vós, vós, VÓS, que estais realmente fatigados e sobrecarregados, e que, portanto, sois seres reais, dolorosamente conscientes da vossa existência — sois vós quem devem ir a outro Ser, que é tão real como vós mesmos — Um, que é um ser tão vivente, como vós sois seres viventes. É Ele quem vos diz a vós: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.”
 
Queridos amigos, quero que tenhais uma convicção muito clara da vossa própria personalidade; porque, às vezes, dá a impressão de que as pessoas se esquecem que são indivíduos distintos de todo o mundo. Se eu desse de presente uma moeda de ouro, e se o seu som se escutasse à distância, a maioria dos homens estariam conscientes da sua própria personalidade, e cada qual olharia por si mesmo, e trataria de obter o prêmio. Mas, freqüentemente encontro, em relação com as coisas eternas, que os homens parecem perder-se na multidão e pensam nas bênçãos da Graça como uma sorte de chuva geral que pode cair nos campos de todos de maneira igual — mas, não necessariamente, esperam a chuva na sua própria parcela, nem desejam obter uma bênção específica para si mesmos. Então, pois, vós, vós, VÓS, que estais fatigados e carregados, despertai! Onde estão? A chamada do texto não é para a vossa irmã, a vossa mãe, o vosso marido, o vosso irmão ou o vosso amigo, mas para vós: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar.”

Bom, agora que se despertaram e sentem que são uma personalidade distinta de todos os outros no mundo, segue o ponto de maior importância de todos — vós tendes de ir a outra Personalidade. “Vinde a Mim”, diz Cristo, “e Eu vos farei descansar.” Aqui peço-vos que admireis a maravilhosa graça e a misericórdia desta providência. De acordo com as palavras de Cristo, vós obtereis a paz de coração, não ao vir a uma cerimônia ou a uma ordenança, mas a Cristo mesmo: “Vinde a mim.” Nem sequer diz: “Vinde ao meu ensino, ao meu exemplo, ao meu sacrifício”, mas “Vinde a mim.” É a uma Pessoa a quem deveis ir, a essa mesma Pessoa que, sendo Deus e igual ao Pai, Se despojou das Suas glórias e assumiu corpo humano—
 
“Primeiro, para na nossa carne mortal, servir.
E depois, nessa mesma carne, morrer.”

E vós deveis ir a essa Pessoa. Deve haver uma certa ação da vossa parte, o movimento de vós para Aquele que vos chama, “Vinde a mim”—um movimento que se afasta de toda a outra base de confiança ou de porta de esperança, para Ele, como a Pessoa que Deus designou e ungiu para que seja o único Salvador, o grande depósito de graça eterna, em quem o Pai quis que habitasse toda a plenitude! Oh glorioso Homem, oh glorioso Deus, que pode falar assim com autoridade, e dizer: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar!” Suplico-vos que ponhais de lado qualquer outro pensamento, exceto o de Cristo vivendo, morrendo, ressuscitando e subindo à Glória, já que Ele vos assinala, não a Casa de Oração, nem o Trono de Glória, nem o batistério, nem a Mesa da Comunhão; nem sequer as coisas mais santas e sagradas que Ele ordenou para outros propósitos — nem sequer ao próprio Pai, nem ao Espírito Santo — mas sim diz: “Vinde a Mim.” Aqui deve começar a vossa vida espiritual, a Seus pés. E aqui deve ser aperfeiçoada a vossa vida espiritual — no Seu peito — já que Ele é igualmente o Autor e o Consumador da fé. Adoremos a Cristo, em cuja boca estas palavras são tão adequadas e cheias de significado! Ele não pode ser menos que divino, quem assim se expressa: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei aliviarei.”

 
II. Agora, em segundo lugar, quero que se dêem conta da MAGNANIMIDADE DO CORAÇÃO DE CRISTO, manifesta no texto: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar.”

Dêem-se conta, primeiro, da magnanimidade do Seu coração ao destacar aqueles verdadeiramente necessitados para fazê-los objeto da sua chamada amorosa. Alguma vez se deram conta do quadro que o Senhor desenhou mediante estas palavras? “Todos os que estais fatigados.” Essa é a descrição de uma besta que tem um jugo sobre o seu pescoço. Os homens pretendem encontrar prazer ao serviço de Satã, e permitem-lhe que ponha o seu jugo, sobre os seus pescoços. Seguidamente têm que trabalhar e batalhar e suar no que eles denominam prazer, sem encontrar descanso nem contentamento nisso; e, quanto mais trabalham ao serviço de Satanás, mais se incrementa o seu trabalho, já que ele utiliza a aguilhada e o látego, e sempre os está impulsionando a esforços renovados. Agora, Cristo diz a essas pessoas que são como animais de carga: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.”

 
Mas, eles encontram-se numa condição pior do que a descrita, pois não somente trabalham, como o boi no arado, senão que também levam uma carga muito pesada. Muito poucas vezes acontece que os homens convertem um cavalo ou um boi simultaneamente numa besta de tiro e de carga, pois assim é como o diabo trata ao homem que se converte em seu servo. Satanás o engancha à sua carroça e o obriga a arrastá-la, e logo salta sobre as suas costas e cavalga como um ginete. Assim que o homem trabalha e está severamente carregado, já que tem de arrastar o carro e levar o ginete. Tal homem fatiga-se atrás do que ele chama prazer, e, ao fazê-lo, o pecado salta sobre as suas costas, e logo se lhe segue outro pecado, e logo outro, até que pecados sobre pecados o esmagam contra o chão, mas mesmo assim tem que continuar arrastando e devorando com toda a sua força! Este duplo duro trabalho é suficiente para o matar. Mas, Jesus olha-o com piedade, vendo-o fatigado, sob a carga do pecado, e trabalhando para obter prazer no pecado, e diz-lhe: “Vem a mim, e eu te farei descansar.”

 
Cristo quer às bestas de tiro do diabo, ainda quando já se desgastaram ao serviço de Satanás? Quer persuadi-las a abandonar o seu velho amo para que venham a Ele? A estes pecadores que só estão cansados do pecado porque já não podem encontrar forças para seguir pecando, ou que não se sentem cômodos, posto que já não desfrutam do prazer que antes encontravam na maldade, Cristo chama-os a vir a Ele? Sim! E isto mostra a magnanimidade do Seu coração, de que é Seu desejo dar descanso àqueles que estão grandemente fatigados e cansados.

Mas a magnanimidade do Seu coração comprova-se no fato de que convida a todos esses pecadores a vir a Ele — a todos esses pecadores, repito! Que grande significado contém essa pequena palavra: “todos”! Acredito que, geralmente, quando um homem usa grandes palavras diz pequenas coisas; e quando usa palavras pequenas, diz grandes coisas. E, certamente, as pequenas palavras do nosso idioma são usualmente as que têm maior significado. Qual é o significado desta pequena palavra, “todos”, ou, melhor, o que é que ela exclui? E Jesus, sem limitar o seu significado, diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados.” Oh, a magnificência do amor e da Graça de Cristo, que convida a todos a vir a Ele! E mais ainda, convida a todos a vir imediatamente. “Vinde todos comigo”, diz Ele, “todos os que estais fatigados e carregados; vinde em uma multidão, vinde em grandes massas! Voem para Mim como uma nuvem, como pombas para os seus postigos.” Nunca serão demasiados os que venham a Ele e O façam sentir-Se satisfeito. Ele diz: “Quantos mais venham, mais contente fico.” O coração de Cristo regozija-Se por todas as multidões que vêm a Ele, porque tem feito uma grande festa, e convidou a muitos, e continua enviando os Seus servos a dizer: “Ainda há espaço; portanto, vinde para mim, todos os que estais fatigados e carregados.”

Recordemos, também, que a promessa de Cristo está dirigida pessoalmente a cada um destes pecadores. Cada um deles virá a Ele e Ele dará o descanso a cada um. A cada um que está fatigado e carregado, Jesus diz-lhe: “Se tu vieres a mim, Eu, Eu mesmo te darei descanso; não te enviarei aos cuidados do meu servo, o ministro, para que cuide de ti, mas sim, Eu mesmo farei todo o trabalho e te farei descansar.” Cristo não diz: “Levar-te-ei à minha palavra, e ali encontrarás alívio.” Não; mas diz pelo contrário: “Eu, uma Pessoa, dar-te-ei descanso a ti, uma pessoa, por meio de um claro ato Meu, se tu desejas vir a Mim.”
 
Esse trato direto de Cristo com as pessoas é certamente bendito. Tennyson é autor de um poema que é, para mim, o mais doce de todos os que escreveu. Tem de ver com uma menina que foi hospitalizada e que sabia que devia ser operada, com grande risco da sua vida. Assim, perguntou à sua companheira da cama contígua o que devia fazer. A sua companheira respondeu-lhe que contasse tudo a Jesus e Lhe pedisse que Ele cuidasse dela. Então a menina perguntou: “Mas, como me poderá conhecer Jesus?” As duas meninas estavam confundidas porque havia muitíssimas fileiras de camas no hospital infantil, e além disso, pensavam que Jesus estava tão ocupado, que não saberia qual menina Lhe tinha pedido que cuidasse dela. Então, acordaram que a menina pusesse as suas mãos fora da cama, para que quando Jesus as visse, soubesse que ela era a menina que d’Ele necessitava. A cena, tal como o poeta a descreve, é comovedora. Ao relatá-la tiro-lhe algo do seu encanto, pois, pela manhã, quando os médicos e as enfermeiras se passeavam pelo pavilhão, deram-se conta de que Jesus tinha estado ali e que a menina tinha ido para Ele sem necessidade da operação. Ele tinha cuidado dela da melhor maneira possível; e ali estavam as suas pequenas mãos, estendidas fora da cama.

Bem, nós nem sequer temos de fazer isso, posto que o Senhor Jesus nos conhece a cada um de nós, e Ele virá pessoalmente a cada um de nós, e nos fará descansar. Embora seja muito certo que tem muito de fazer, ainda pode dizer: “Meu Pai até agora trabalha; também Eu trabalho”, já que o universo inteiro se mantém em funcionamento pela Sua força onipotente, e Ele não esquecerá a nenhum que venha a Ele. De igual maneira que uma pessoa com abundantes mantimentos pode dizer a uma grande multidão de famintos: “Vinde comigo, e eu darei alimento a todos”, da mesma maneira Cristo sabe que em Si mesmo tem o poder para dar descanso a cada alma fatigada que venha a Ele. Tem absoluta certeza disso, por isso não diz: “Vem mim, e farei tudo o que esteja da minha parte contigo” ou “se me esforço, talvez te possa fazer descansar”. Oh, não; mas sim, Ele diz: “Vem a mim, e eu te farei descansar”! É algo que se dá por verdadeiro n’Ele, já que, deixem-me dizer-lhes, exercitou a Sua mão em milhões de pessoas, e não falhou nenhuma vez, por isso fala com um ar de sólida confiança. Estou seguro, tal como o meu Senhor O estava, que se houver alguém aqui, entre vocês, que queira vir a Ele, Ele pode dar, e dará descanso à sua alma. Ele fala com a consciência de possuir todo o poder requerido, e com a absoluta certeza de que pode realizar o ato requerido.

Porque, reparai, Jesus promete sabendo tudo de antemão a respeito dos casos que descreve. Ele sabe que os homens estão fatigados e carregados. Não há dor no coração de alguém aqui presente, que Jesus não conheça, porque Ele sabe tudo. Os vossos pensamentos podem estar retorcidos de muitas maneiras, e todos os vossos métodos de julgamento podem parecer um labirinto, um quebra-cabeças que, conforme vós credes, ninguém pode decifrar. Podeis estar sentados aqui, falando convosco mesmos: “Ninguém me entende, nem sequer eu mesmo. Encontro-me apanhado nas redes do pecado, e não vejo nenhuma forma de escapar. Estou perplexo além de toda a possibilidade de libertação.” Digo-te, meu amigo, que Cristo não fala sem sentido, quando diz: “Vem a mim, e eu te farei descansar.” Ele pode seguir o fio através da meada emaranhada e pode extraí-lo em linha reta. Ele pode seguir todas as partes do labirinto até chegar ao seu próprio centro. Ele pode tirar a causa do teu problema, embora, tu mesmo não saibas do que se trata; e o que para ti se encontra envolto em mistério, uma dor impalpável que não podes manipular, o meu Senhor e Salvador sim, pode eliminá-lo. Ele fala a respeito do que pode fazer quando dá esta promessa, já que a Sua sabedoria é tal, que pode perceber as necessidades de cada alma individual, e o Seu poder é suficientemente grande para aliviar todas as necessidades; assim que Ele diz a cada espírito fatigado e carregado no dia de hoje: “Vem a mim, e eu te farei descansar.”
 
Recordemos, também que, quando Cristo deu esta promessa, Ele sabia o número dos que tinham que ser incluídos na palavra “todos”. Apesar de que para nós esse “todos” inclui uma multidão que nenhum homem pode contar, “o Senhor conhece os que são seus” e quando disse: “Vinde a mim, todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos farei descansar”, não falava desconhecendo que há milhares e milhões e centenas de milhões que estão fatigados e carregados, e Ele dirigia-se concretamente a esse vasto conglomerado quando disse: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.”

 
Queridos amigos, consegui fazê-los pensar a respeito da grandeza do poder e da graça do Senhor? Motivei-os para que O adorem? Espero que assim seja. A minha própria alma deseja prostrar-se aos Seus pés, absorta na doce consideração da grandeza dessa graça, que de tal maneira se expressa e que fala com a verdade, quando diz a toda a raça humana na ruína: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu”—com uma certeza absoluta “vos farei descansar.”

 
Não devemos esquecer tampouco que o que Cristo prometeu tem vigência para todos os tempos. Aqui temos a um homem falando que foi “desprezado e descartado pelos homens”. Vejamo-lo claramente ante os nossos olhos, o filho do carpinteiro, o filho de Maria, “Varão de Dores e experimentado no sofrimento”. Entretanto, Ele disse aos que se congregavam ao Seu redor: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar”; mas Ele olhava através de todos os séculos que haveriam de vir, e falou-nos, também a nós agora, aqui congregados, e logo olhou a todas as multidões desta grande cidade, e deste país, e de todas as nações da Terra, e disse: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.” Em efeito, Ele disse: “Até que eu venha de novo à terra, sentado sobre o trono do julgamento, prometo que toda alma carregada que venha a Mim encontrará descanso.” Pela sua multidão, os sofrimentos dos homens são semelhantes às estrelas do céu, e os próprios homens são inumeráveis. Contem, se puderem, as gotas do orvalho da manhã, ou as areias do mar e seguidamente tratem de contar aos filhos de Adão desde o começo do tempo; mas, o nosso Senhor Jesus Cristo, falando com a vasta multidão dos filhos dos homens que estão fatigados e carregados, diz-lhes: “Vinde a mim; vinde a mim; porque o que a mim vem jamais o lançarei fora; e a que vem a mim, eu lhe darei descanso para a sua alma.”
 
Mostra, também, a grandeza do poder e da graça de Cristo quando recordamos aos muitos que têm comprovado que esta promessa é verdadeira. Vós sabeis que através de todos estes séculos até agora, nenhuma alma fatigada e carregada tem vindo a Cristo em vão. Até nos últimos limites da Terra, não se tem encontrado um criminoso tão vil, ou uma alma totalmente encerrada no calabouço do Gigante Desespero, que ao vir a Cristo não tenha recebido o descanso prometido e, portanto, Cristo tem sido engrandecido.
 
III. Agora, consideremos juntos, por uns minutos, a SIMPLICIDADE DESTE EVANGELHO.

 
Jesus Cristo diz a todos os que estão fatigados e cansados: “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.” Este convite implica um movimento, um movimento de algo para algo. Vós sois convidados a afastar-se de tudo aquilo em que tendes vindo a pôr a vossa confiança, e a caminhar para Cristo e a confiar n’Ele; e assim que o façais, Ele vos dará o descanso. Quão diferente é esta simplicidade, dos sistemas complexos que os homens têm estabelecido! Pois, de conformidade com os ensinos de certos homens, para se ser cristão e para seguir todas as regulamentos do culto, precisam de ter uma pequena biblioteca de consulta para saber a que hora terá que se acender as velas no velador, e como mesclar o incenso, ou a maneira adequada de usar o véu, e aonde devem voltear ao dizer certa oração, e a que outro lugar devem voltear ao dizer outra, e se a sua entonação ou o seu canto ou se o seu murmúrio será aceitável a Deus. Oh queridos, queridos, queridos! Toda esta complexa maquinaria inventada pelo homem (o assim chamado “batismo” na infância, a confirmação na juventude, “tomar o sacramento”, como alguns o chamam) é um maravilhoso abracadabra,  cheio de mistério e falsidade e engano; mas, de acordo com o ensino de Cristo, o caminho para a salvação é somente este: “ Vinde a mim, e eu vos farei descansar.” E se tu, querido amigo, vens a Cristo e confias n’Ele, encontrarás esse descanso e essa paz que Ele sente prazer em outorgar; encontrarás o coração da noz, alcançarás a essência e a raiz de todo o assunto. Se o teu coração abandonar qualquer outra confiança e só está dependendo em Jesus Cristo, encontrarás a vida eterna, e essa vida eterna nunca será arrebatada de ti. Portanto, não esperes para te gozares nisso.

E prosseguindo, este convite está no tempo presente: “Vem agora.” Não esperes para chegar em casa, porém deixa que a tua alma se mova para Cristo. Nunca vais estar em melhor condição para ir a Ele do que estás agora; nem estarás em piores condições ao vir a Ele, a menos que, ao ouvir o chamado, estejas mais endurecido e menos inclinado a vir. Neste mesmo momento necessitas de Cristo; portanto, vai a Ele. Se estás faminto, essa é certamente a melhor razão para comer. Se estás sedento, essa é a melhor razão para beber. Ou pode ser que estejas tão doente que não tenhas fome. Então vai a Cristo, e come das provisões do Evangelho até que se abra o teu apetite dessas provisões. Ao pecador que afirma: “não tenho sede de Cristo”, eu gosto de dizer-lhe: “vai e bebe até que se abra a tua sede”, porque da mesma maneira que uma bomba de água não funciona se não lhe deitas líquido primeiro, assim acontece com certos homens. Quando recebem algo da verdade nas suas almas, embora parecesse ao princípio uma recepção muito imperfeita do Evangelho, isso ajudá-los-á posteriormente a ansiar mais profundamente a Cristo e a sentir um gozo mais intenso das bênçãos da salvação.

 
De todas as maneiras, Cristo diz: “Vem agora”, e Ele diz de maneira implícita: “Vem, tal como estás”. Tal como são, vinde a mim, todos os que estais fatigados e cansados, e eu vos farei descansar. Se vocês trabalham, então, antes de lavar as vossas mãos engorduradas, vinde a mim, e eu vos farei descansar. Se vós estiverdes débeis e cansados, e um triz à beira da morte, morrei no meu peito; porque para isso tendes vindo a mim. Não vamos a Cristo quando exercitamos o nosso próprio poder de vir, senão quando nos esquecemos do nosso desejo de permanecer afastados d’Ele. Quando o coração se rende, solta tudo aquilo que está sustentando, e se arroja nas mãos de Cristo; é nesse momento que se realiza o ato de fé, e é a esse ato a que Cristo os convida quando diz: “ Vinde a mim, e eu vos farei descansar.”

“Bem” - diz alguém - “eu nunca entendi o Evangelho; sempre me intrigou e me deixou perplexo.” Nesse caso, vou tratar de apresentá-lo de maneira muito clara: Jesus Cristo, o Filho de Deus, viveu e morreu pelos pecadores, e tu estás convidado a vir e confiar n’Ele. Confia n’Ele; depende d’Ele; coloque  todo o teu peso sobre Ele; vai para Ele e Ele dar-te-á descanso. Oh, que pela Sua infinita misericórdia Ele revele esta simples Verdade de Deus ao teu coração, e que tu estejas disposto a aceitá-la agora mesmo! Eu quero glorificar ao meu bendito Senhor, que trouxe para o mundo um plano de salvação tão simples como este. Há alguns homens que parecem quebra-cabeças, já que gostam de perder-se em dificuldades e mistérios, e exibir ante os seus ouvintes os frutos da sua grande cultura e do seu maravilhoso saber. Se o seu Evangelho for verdadeiro, é uma mensagem exclusivamente para a elite; e muitos teriam que ir para o Inferno se esses fossem os únicos pregadores. Mas, o nosso Senhor Jesus Cristo glorificava-Se em pregar o Evangelho aos pobres, e é para a Sua honra que pode dizer-se, até este dia, “não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres; senão que o néscio do mundo escolheu Deus para envergonhar aos sábios; e o fraco do mundo escolheu Deus para envergonhar ao forte; e o vil do mundo e o menosprezado escolheu Deus, e o que não é, para desfazer o que é, a fim de que ninguém se glorie na Sua presença”. É uma bênção que haja um Evangelho que se adequa ao homem que não sabe ler, e que também se adapta ao homem que não pode alinhavar dois pensamentos consecutivos, e que se rebaixa ao homem cujo cérebro quase falhou completamente na hora da morte; um Evangelho que se adequa ao ladrão morrendo na Cruz; um Evangelho tão simples que, se só houvesse graça para recebê-lo, não requeira grandes poderes mentais para ser entendido. Bendito seja o meu Senhor por nos dar um Evangelho tão simples e claro como este.

Quero que prestem atenção a um ponto mais, e logo concluo a minha mensagem. E é este: A GENEROSIDADE DO PROPÓSITO DE CRISTO.
 
Vinde, amados que amais ao Senhor, escutem enquanto vos repito estas Suas doces palavras: “Vinde a mim, todos os que estão fatigados e cansados, e eu vos farei descansar.” “Eu vos farei…” Ele não diz: “Vinde para mim e tragam-me algo”, senão “Vinde a mim, e eu vos farei descansar.” Tampouco expressa: “Vinde e fazei algo para Mim”, senão “Eu farei algo por vós.” Possivelmente, este tenha sido o vosso problema, queridos irmãos e irmãs, que hoje hão desejado trazer a Cristo um sacrifício aceitável; e na escola dominical, ou em alguma outra forma de serviço, estiveram tratando de O honrar. Alegro-me que façais isso, e espero que sigais tentando-o, mas cuidai-vos de não cair no engano da Marta, e “afanar-se com muito serviço.” Por um instante, esqueçam-se da idéia de vir a Cristo para trazer-Lhe algo; vinde agora, vós que estão fatigados e carregados, e recebei uma bênção dEle, pois Ele tem dito “Eu fá-los-ei descansar.” Cristo pode ser honrado quando vós Lhe dais, mas Ele deve ser honrado pelo que Ele vos dá! Não há dúvida da bondade do que dEle receberão, se vós vierdes a Ele; então, agora mesmo, não penseis em trazer-Lhe nada a Ele, porém vinde a Ele para que possais receber dEle!

“Quero amar a Cristo”, diz um. Bem, esquece-te disso agora; pelo contrário, trata de sentir quanto Ele te ama. “Oh, mas eu quero consagrar-me a Ele!” Muito bem, meu querido amigo; mas agora, pensa como Ele se consagrou por ti! “Oh, mas eu desejo não pecar mais!” Muito bem, querido amigo; mas, agora, pensa como Ele carregou com os teus pecados em Seu próprio corpo, no madeiro. “Oh,” diz um, “quereria ter um frasco de alabastro com um unguento muito precioso, para Lhe ungir a Sua cabeça e os Seus pés, e que toda a casa se encha de um doce perfume!” Sim, tudo isso está muito bem, mas escuta: o Seu nome é um unguento derramado; se tu não possuis nada de unguento, Ele tem! Se não tens nada para Lhe trazer a Ele, Ele tem abundância que te dar!
 
Quando o meu Prezado Senhor chama a alguém para que venha a Ele, não é para o Seu próprio benefício que o chama. Quando Ele vos outorga os Seus favores, quando Ele vem com grandes promessas de descanso, não é um suborno para comprar os vossos serviços. Ele é muito rico para ter necessidade dos melhores e dos mais fortes de entre nós! Ele somente nos pede, na nossa grande necessidade, que sejamos tão amáveis para receber tudo d’Ele! Isto é a maior coisa que podemos fazer por Deus —estar totalmente vazios para que a Sua plenitude possa verter-se em nós. Isso é o que quero fazer quando me sentar à Mesa da Comunhão — quero estar sentado ali, sem pensar em nada que possa oferecer ao meu Senhor — a não ser abrir a minha alma, e tomar tudo o que Ele me queira dar! Há momentos em que os lojistas estão vendendo a sua mercadoria, mas também há momentos em que recebem mercadoria, como vocês sabem. Portanto, agora, abri a porta do grande armazém e deixai entrar todos os bens! Deixai que Cristo inteiro entre na vossa alma.
 
“Não sinto,” diz um “como se eu pudesse gozar a Presença do meu Senhor.” Mas porque não? “Porque estive tão intensamente dedicado todo o dia ao Seu serviço; e agora estou tão fatigado e carregado.” Tu és alguém a quem especialmente o Senhor chama a vir a Ele! Não trates de fazer nada, exceto simplesmente abrires a tua boca, e Ele a encherá. Vem agora e simplesmente recebe dele, e glorifica-O recebendo! Oh Sol, iluminas; mas não até que Deus te faça brilhar! Oh Lua, tu alegras a noite; mas não com o teu próprio brilho, porém só com luz emprestada! Oh campos, vós produzis colheitas; mas o grande Agricultor cria o grão! Oh Terra, estás cheia; mas somente cheia da bondade do Senhor! Tudo recebe de Deus, e O louva quando recebe. Permiti-me que o meu cansado coração se incline quieto sob a chuva do amor. Permiti que a minha alma carregada descanse em Cristo, e O possa alegrar ao estar alegre nEle.

Deus vos abençoe a todos, e que Cristo seja glorificado na vossa salvação e na vossa santificação, por causa de Seu nome! Amém.



Sermão 2708 - O VELHO EVANGELHO PARA O NOVO SÉCULO, C. H. Spurgeon

Sermão n.º 2708 – “THE OLD GOSPEL FOR THE NEW CENTURY”, pregado no domingo, 5 de Dezembro de 1880, por Charles Haddon Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.




Traduzido em 09/XII/08 por Carlos António da Rocha

http://no-caminhodejesus.blogspot.com
 
fontes
Adapted from The C.H. Spurgeon Collection, Version 1.0, Ages Software, 1.800.297.4307

http://spurgeon.com.mx/chequera.htm

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