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domingo, 9 de maio de 2010

O mendigo cego do templo – (Sermão) – C. H. Spurgeon

/ On : 10:21/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

Manhã de Domingo, 14 de Agosto de 1887

"'Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.' Tendo dito isso,
cuspiu no chão, misturou terra com saliva e aplicou aos olhos do
homem. Então lhe disse: 'Vá lavar-se no tanque de Siloé' (que significa
'enviado'). O homem foi, lavou-se e voltou vendo" (João 9.5, 6, 7).


Nosso Salvador estivera lidando com os judeus e os fariseus, que tinham se oposto ferrenhamente a ele e até mesmo apanharam pedras para apedrejá-lo. Ele se sentia muito mais à vontade quando podia lançar o olhar aos pobres seres necessitados e abençoá-los com a cura e a salvação. O destino de muitos entre nós é entrarmos em controvérsia como os crentes professos carnais dos nossos dias, e é um grande alívio conseguirmos ficar mais longe deles, com suas pedras, e procurar pecadores individuais, e pregar o evangelho a eles em nome de Deus, sendo que assim ficam abertos, espiritualmente, os olhos dos cegos.
Ao lado da porta do templo, estava sentado um mendigo cego, que devia ser uma personagem notável, pois possuía uma perspicácia e sagacidade naturais notáveis. Por ter ficado ali durante longo tempo, ficou bem conhecido entre as pessoas que frequentavam o templo e entre o círculo mais amplo daqueles que vinham de longe às grandes festas religiosas anuais. Esse homem não conseguia ver Jesus, mas, o que era bem melhor, Jesus podia vê-lo; e lemos no início do capítulo: "Ao passar, Jesus viu um cego de nascença." Havia muitos outros cegos em Israel, mas Jesus viu esse homem com olhar especial. Posso até imaginar o Salvador em pé, parado, avaliando-o, escutando as coisas curiosas que ele falava, observando que tipo de homem era e demonstrando interesse especial por ele. Nesta manhã, também pode estar no Tabernáculo alguém que não consegue ver Jesus por não ter olhos espirituais; mas com certeza Jesus está olhando para essa pessoa agora, perscrutando-a da cabeça aos pés, e interpretando-a com olhar discernente. Jesus está considerando a transformação que realizará nela daqui a pouco, porque tem a intenção grandiosa e graciosa de lidar com esse pecador, que é espiritualmente semelhante ao mendigo cego, de iluminá-la e de lhe conceder que contemple a glória do Salvador. Suponho que o mendigo cego do templo desse pouco valor à vista, por ter sido cego desde o nascimento. Aqueles que já tiveram a capacidade de ver sentem, com certeza, muita falta da luz do dia; mas aqueles que nunca conseguiram ver, dificilmente podem ter idéia de como é esse sentido, e, por isso, não devem sentir muito o fato de serem privados dele. A pessoa de quem falamos nesta ocasião não tem idéia da alegria da verdadeira religião porque não conhece o significado da vida e da luz espirituais; por enquanto, nunca viu, e por isso não percebe sua própria desgraça de ser cega. Ficou cega de nascença e, possivelmente, se sente satisfeita com essa condição, posto que não conhece o deleite que aguarda um olho iluminado pelo céu. Para ela, as coisas espirituais são uma região desconhecida, da qual ela não tem o menor conhecimento. Ela está aqui presente, mas não procura a salvação, nem a deseja; mas Jesus conhece o valor da visão, conhece as glórias que a luz celestial aplicaria à mente, e ele não aceita ser limitado na sua atuação pela ignorância humana, mas outorgará a sua generosidade segundo sua própria bondade que é tão ampla como o mar ilimitado.

Esse mendigo não orou pedindo a vista; não está registrado, pelo menos, que ele assim o tenha feito. Era mendigo: mendigar era a sua profissão; mas entre todos os seus pedidos, não pediu a visão. No entanto, Jesus lhe outorgou a visão. Vocês não conhecem aquela declaração gloriosa de livre graça: "Fui achado por aqueles que não me buscavam"? Não é maravilhoso que Jesus frequentemente vá até aqueles que não o buscam? Ele vai repentinamente até eles, na soberania da sua compaixão infinita, e antes de começarem a orar pedindo a bênção, ele já as outorgou a eles. O amor gracioso de Jesus antecede o desejo que eles têm por ele. Quando neles desperta a consciência do valor da salvação, descobrem que já a possuem, e assim suas primeiras orações se misturam aos louvores. Tenho certeza de que há algumas pessoas aqui agora, que são semelhantes ao homem que nasceu cego: não sabem o que querem, ainda não têm consciência do valor da bênção, e por isso não a buscaram; mas hoje vão recebê-la.

A seguinte circunstância favorecia o mendigo cego: ele estava no caminho por onde Jesus poderia passar, pois estava à porta do templo. Meus amigos, vocês estão num terreno esperançoso neste momento, uma vez que vocês estão num lugar onde o nosso Senhor frequentemente aparece e para onde ele tem grande probabilidade de vir de novo. Centenas de vezes, nós já oramos para ele entrar nesta casa, e assim fizemos hoje de manhã. Ele tem sido glorificado neste Tabernáculo; e seus amigos lhe têm dado tantas boas-vindas que ele se deleita em vir para cá. Oxalá quando Jesus passe por aqui, ele faça uma parada e olhe para você com seu olhar de misericórdia infinita!

O que nosso Senhor estava fazendo? A verdade é que ele estava sob compulsão divina, e disse: "Preciso realizar as obras daquele que me enviou." Estava em busca de matéria-prima para trabalhar - matéria na qual as obras de Deus se manifestassem. E ali havia o homem ideal para isso, preparado para Cristo assim como o barro está preparado para o oleiro. Seria só ele receber a vista, e a totalidade de Jerusalém veria a obra do Senhor, e até mesmo habitantes de terras distantes ficariam sabendo disso. Esse mendigo cego era exatamente a pessoa que o Salvador estava procurando. Meu Mestre anda pelos corredores das igrejas, de ponta a ponta, e descobre muitas pessoas que conseguem ver, ou que pensam que podem ver. Ele deixa de lado essas pessoas, pois "aquele que é são não precisa de médico". Mas, ao continuar a sua caminhada, chega finalmente a uma pobre criatura nas trevas, desesperadamente cega de nascença e desamparada, e Jesus para e diz: "É este o homem certo; aqui há espaço para um milagre." E assim realmente é, ó Senhor. Naqueles soquetes vazios, ou nos globos oculares mirrados, há espaço para o poder da cura exibir-se: naquele coração endurecido e naquela vontade teimosa, há espaço para a graça renovadora. As necessidades do pecador são as oportunidades do Salvador; e você, pobre pecador, culpado, perdido e arruinado, é a matériaprima para a graça de Cristo lavrar; você é exatamente quem o amor perdoador de Cristo está procurando.

Você que não consegue enxergar as coisas espirituais, você que mal sabe o que pode valer a vista espiritual, e que quase nem tem desejo de saber, você é a pessoa em quem há oportunidade para a graça onipotente operar, espaço e escopo para a perícia incomparável do amor do nosso Salvador. Meu Senhor pára e olha para você. Ele diz: "Este servirá, é o tipo de homem que quero; nele posso operar minha missão e meu propósito na vida. Sou a luz do mundo e liderarei com essas trevas, pois as removerei imediatamente." Ó Senhor Jesus, tu estás agora nos mais altos céus, mas não deixas de escutar as orações dos teus servos nesta pobre Terra. Entra neste Tabernáculo, e repita as maravilhas do teu amor! Não te pedimos que abras os olhos naturais dos cegos, mas pedimos que dê visão espiritual aos cegos, entendimento aos errantes, e salvação aos perdidos. Revela-te como Filho do Altíssimo, ao dizer: "Haja luz." Esses pobres cegos não oram a ti, mas nós pedimos graça em favor deles, e seguramente teu próprio coração te motiva a nos atender. Vem nesta hora e abençoa-os, para o louvor da glória da tua graça!

Esse caso do mendigo cego é muito instrutivo e, por isso, devemos lidar com ele na esperança de que, enquanto consideramos o caso que nos serve de modelo, possamos vê-lo repetido na forma espiritual no nosso meio. Espírito Santo, abençoa nosso sermão, para que ele alcance esse propósito.

I. Primeiro, na cura desse homem, e na salvação de cada alma escolhida, veremos O GRANDE CURADOR DESTACADO. Se alguém entre nós chegar a ser salvo, o Salvador será engrandecido assim. Se formos perdoados, nós mesmos não seremos honrados pelo perdão, mas a mão da realeza que assinou e lacrou o perdão será grandemente enaltecida. Se nossos olhos forem abertos, não ficaremos famosos por causa da nossa vista, mas aquele que nos abriu os olhos se tornará ilustre pela cura. Foi assim no presente caso, e isso de modo justo.

Para começarmos, na mente desse homem, tão logo ele recebeu a vista, "o homem chamado Jesus" apareceu em primeiro plano. Jesus, para esse homem, era a pessoa mais importante que existia. Tudo o que sabia a seu respeito, de início, era que se tratava de um homem chamado Jesus; e com esse título, Jesus preenchia a totalidade do horizonte da sua vista. Para esse cego curado, Jesus lhe valia mais do que todos aqueles fariseus eruditos, ou do que todos os seus vizinhos. Jesus era muitíssimo grande, pois lhe abrira os olhos. Depois de pouco tempo, fixando seus olhos naquela personagem, enxergou nela algo mais, e declarou: "Ele é um profeta." Disse isso com coragem, pois corria grave risco ao assim falar. Disse aos fariseus que levantavam objeções: "Ele é um profeta." Um pouco mais adiante, chegou a ponto de crer ser Jesus o Filho de Deus, e o adorou. Ora, meu caro amigo, se você for salvo por Jesus, você deverá deixar sua estrela descer pelo horizonte, ao passo que a estrela de Jesus deve subir e aumentar seu brilho, até se tornar muito mais do que uma estrela: um sol, que produz o seu dia e que inunda de luz a sua alma inteira. Se formos salvos, Cristo precisará ter, e terá mesmo, a glória por esse fato. Ninguém na Terra ou no céu pode se rivalizar com Jesus quanto à alta estima das almas trazidas das trevas para a luz: para elas, Jesus é tudo. Vocês não gostam disso? Vocês querem uma parte dos despojos, um fragmento da glória? Vão adiante e continuem cegos, posto que nunca poderá haver alteração da sua situação enquanto se recusarem a honrar o Salvador. Aquele que abre os olhos de um homem merece seus gratos louvores para sempre.

Depois que esse homem recebeu sua vista, seu testemunho era totalmente de Jesus. Foi Jesus quem cuspiu, foi Jesus quem fez o barro, foi Jesus quem ungiu os seus olhos. Assim será na mente de vocês com o evangelho da sua salvação, será "Jesus somente". É Jesus quem se tornou a garantia da aliança, Jesus quem se tornou o sacrifício expiador. Jesus é o Sacerdote, o Intermediário, o Mediador, o Redentor. Conhecemos Jesus como Alfa e como Ômega. Ele é o primeiro e é o último. Ao salvar você, não haverá engano; e não haverá nenhuma mistura; você não terá nada que dizer a respeito dos homens, nem do mérito humano, nem da vontade humana; mas, na cabeça que no passado foi ferida pelos espinhos você colocará todas as coroas. Jesus fez a obra, e a fez inteiramente, e somente a ele é devido o louvor.

Deve ser notado que a autoridade de Jesus emitiu a ordem salvífica. "Vá, lave-se." Não foram estas as palavras de Pedro, nem de Tiago, nem de João, mas as palavras de Jesus, e por isso o homem obedeceu a elas. A mensagem do evangelho, "Creia e viva," não é obedecida antes de você perceber que é proclamada pela autoridade suprema do rei Jesus, o Salvador. Ó senhores, aquele que manda vocês crerem é o mesmo Senhor que quer lhes dar a cura mediante a sua obediência ao mandamento, e o fará mesmo. Confiem, porque é assim que ele ordena a vocês. É a autoridade de Cristo que justifica a pregação do evangelho. Obedeçam ao seu mandamento, e já obtiveram a sua salvação. O sucesso do mandamento de pregar o evangelho é produzido por aquele que o ordenou. É eficaz, pois procede da boca de Cristo. "Onde há a palavra de um rei, ali há poder"; e o evangelho é a palavra do grande Rei, e, por isso, aqueles que prestam ouvidos a ele descobrem que é o poder de Deus para a salvação.
Esse homem, depois de ter recebido a vista, atribuiu-a especificamente e de modo indiviso, a Jesus. Disse: "Ele me abriu os olhos." Quando ele dava o seu testemunho, diante de seus vizinhos ou diante dos fariseus, não emitia nenhum som incerto: tinha sido iluminado por Jesus, e por Jesus somente, e a ele dava toda a glória; e tinha razão em fazer assim.

Venham, então, e me ouçam. Ó vocês que querem achar a luz nesta manhã, me entreguem seus pensamentos neste momento! Esforcem-se para se dar conta de que Jesus Cristo é uma pessoa vivente e atuante. Ele não está morto; ele ressuscitou há muito tempo. Estando vivo e exaltado até aos mais altos céus, está revestido de poder e majestade infinitos, e é poderoso para salvar. De modo espiritual, ele ainda está entre nós, e opera segundo a sua natureza graciosa. Para nós, ele não é um Cristo ausente, nem um Cristo adormecido; mas continua fazendo aquilo que fazia enquanto estava na Terra, só que agora opera no plano espiritual, assim como antes operava no mundo físico. Ele agora está presente para salvar, presente para abrir os olhos dos espiritualmente cegos, presentes para abençoar vocês, a quem me dirijo agora.

Entendam que ele está olhando para vocês neste momento. Estando ele em pé, diante de vocês, a sua sombra agora cai sobre vocês. Ele está considerando o caso de cada um. Você está orando? Ele está escutando. Você nem chegou a ponto de fazer uma oração? Não passa de um desejo? Ele está interpretando esse desejo; enquanto esse desejo passa como sombra pela sua alma, ele está pensando em você. Neste mesmo momento, ele pode falar a palavra que removerá a película dos seus olhos e deixará entrar a luz eterna da graça. Você crê nisso? Se for assim, clame a ele: "Senhor, me concede a recuperação da minha vista." Ele atenderá a você. Talvez enquanto eu estiver falando, ele enviará a luz. Você sentirá o deleite intenso de estar num novo mundo. Escapando das trevas, você entrará na sua maravilhosa luz.

Reconheça, ainda, que a grande transformação que lhe é necessária para ser salvo está além de todo ou qualquer poder mortal. Você não pode efetivála por conta própria, nem toda "a ajuda dos homens e dos anjos em conjunto" a efetivará em seu favor. Esta até mesmo além da sua própria concepção. Como homem carnal, você não sabe o que são as coisas espirituais e não consegue elaborar algum conceito delas. Um morto não pode saber o que é a vida. Se ele pudesse viver de novo, teria algum conhecimento da vida derivado da sua vida anterior; mas quanto a você, ela seria novidade e coisa estranha, pois você nunca viveu para Deus. Você não pode conceber a vista celestial, pois você nasceu cego. Que o Senhor faça uma coisa nova em você neste momento, e o leve para o novo céu e a nova terra, onde habita a justiça!

Lembre-se de que é necessário que esse milagre seja operado em você. Se o cego tivesse permanecido cego, teria continuado um mendigo de certa forma feliz. Parece ter tido recursos mentais consideráveis, e poderia ter progredido no mundo tão bem como outros da confraternidade da mendicância. Mas você não pode se sentir feliz e seguro a não ser que o Senhor Jesus lhe abra os olhos. Para você, não sobrará nada senão o escuridão das trevas para sempre, a não ser que a luz do céu visite você. Você precisa ter Cristo, senão morrerá. O aspecto bem-aventurado disso, neste momento, é que ele ainda está em nosso meio, poderoso para salvar até às últimas consequências, e disposto, agora mesmo, a repetir os milagres de sua misericórdia em favor daqueles que nele confiar. Quase consigo escutar a oração que, dentro de você, luta para se expressar. Silenciosa, e sem se revestir de palavras, está pousando nos seus lábios. Deixe-a falar. Diga: "Senhor, abra meus olhos, hoje mesmo." Ele o fará! Bendito seja o seu nome! Ele veio com o propósito de abrir os olhos dos cegos.

II. Tendo falado a respeito do Médico dos médicos, do modo como ele se destaca ao operar o milagre, eu gostaria agora, em segundo lugar, de dirigir os seus pensamentos AOS MEIOS ESPECIAIS QUE PODEM SER OBSERVADOS no milagre. Jesus poderia ter curado esse homem sem usar meios, ou poderia tê-lo curado por outros meios, mas optou por realizar a cura de uma maneira que permanecerá sendo, para todas as eras, um grandioso sermão, uma parábola instrutiva da graça. Ele cuspiu no chão, fez barro da saliva, e aplicou aos olhos do cego. Esse é um retrato do evangelho.

Essa cura recebe muitas críticas modernas. Em primeiro lugar, o modo da cura parece muito excêntrico. Ele cuspiu e fez barro com a saliva e o pó! Muito estranho! Da mesma forma, o evangelho é singular e estranho para o juízo dos sábios segundo o mundo. "Ora, é muito estranho que devamos ser salvos por intermédio de crermos", diz alguém. Os homens o consideram tão estranho, que cinquenta outros modos de salvação são inventados imediatamente. Embora nenhum dos métodos novos mereça ser descrito aqui, todos parecem acreditar que o modo antigo de "Creia no Senhor Jesus Cristo" pudesse ter sido melhorado. O caminho da justificação pela fé está aberto a críticas, e talvez seja o último que esse mundo sábio tenha selecionado. Entretanto, por mais excêntrico que possa parecer da parte de Jesus, curar com saliva e pó, era a melhor maneira e também a mais sábia para o propósito dele. Suponhamos que, ao em vez disso, ele tivesse colocado a mão no bolso e tirado uma caixa de ouro ou de marfim, e dessa caixa tivesse tirado uma garrafinha de cristal. Suponhamos que tivesse removido a rolha de vidro e, então, derramado uma gota em cada um daqueles olhos cegos e estes se abrissem, qual teria sido o resultado? Todos teriam dito: "Que remédio maravilhoso! O que será que é? Do que era composto? Quem o receitou? Talvez ele tenha achado o amuleto nos escritos de Salomão, e assim aprendeu a destilar as gotas incomparáveis." Desse modo, como podemos perceber, a atenção teria sido fixada nos meios usados, e a cura teria sido atribuída ao remédio, e não a Deus. Nosso Salvador não empregou nenhum óleo raro ou destilação selecionada, mas simplesmente cuspiu e fez barro da saliva; porque sabia que ninguém diria: "A saliva fez a obra" ou "Foi o barro que surtiu efeito." Não, se nosso Senhor parece excêntrico na escolha dos meios, ele não deixa de ser extremamente prudente. O evangelho de nosso Senhor Jesus - e só existe um - é a sabedoria de Deus, por mais singular que pareça ao juízo dos sábios segundo o mundo. Talvez seja considerado estranho, mas é a soma de toda a sabedoria, e aqueles que a experimentam descobrem que é assim. Seria impossível melhorar esse evangelho. É maravilhoso como ele se adapta ao caso do homem; é incomparável como ele é apropriado para o seu desígnio; ele abençoa ao homem, enquanto dá toda a glória a Deus. Ninguém faz do evangelho um rival de Cristo, mas em todos os casos o evangelho, como o poder que abençoa os homens, é manifestado como o poder de Deus.

Em segundo lugar, o meio pode parecer ofensivo para o gosto de alguns. Oh! Até imagino alguns dos grã-finos chiques! Eles torcem o nariz ao ler: "Ele cuspiu"! "Cuspiu no chão, misturou terra com saliva..." Tudo isso vira o estômago dessas pessoas delicadas! E assim acontece com o evangelho. Os Agagues que vão delicadamente não gostam dele. Como os homens de "cultura" zombam do evangelho em favor do qual nossos pais morreram! Ouçam como censuram a palavra sempre bendita da nossa salvação. Dizem que é digno somente para mulheres idosas e para idiotas, e para tais fósseis das eras passadas como o pregador que agora lhes fala. Seríamos todos bobos, menos esses homens modernos, e nosso evangelho é nojento para eles. Sim, mas é só parar um pouco, e o nojo pode acabar. No milagre diante de nós, o meio usado era a saliva; mas da boca de quem? Foi da boca de Jesus, que é muitíssimo doce. Nenhum perfume, feito das mais raras especiarias, poderá se igualar à saliva daquela boca divina de Jesus! Barro! E se é barro? O barro feito pela saliva da boca do Filho de Deus é mais precioso do que "o cristal reluzente", ou os pós mais raros do comércio. Assim é como evangelho do meu Mestre; é ofensivo para aqueles que se orgulham de si mesmos; é ofensivo para o raciocínio carnal e para a complacência idiótica dos que, ao se consideraram sábios, ficaram tolos; mas para vocês, que consideram que ele é precioso, mais do que qualquer língua sabe contar.

"Se nós viajarmos no mundo inteiro de avião,
E buscarmos desde a Bretanha até o Japão,
Não será achada outra religião
Tão justa com Deus, tão segura para o homem em perdição."

O evangelho continua sendo uma pedra de tropeço aos judeus, e estultícia para os gregos; mas para nós, que somos salvos, é "Cristo o poder de Deus e a sabedoria de Deus".

Levanta-se a objeção, ainda, que o Senhor curou esse homem de modo tão corriqueiro! Afinal das contas, cuspir e fazer barro da saliva qualquer um podia fazer isso! Por que não foi usada uma cerimônia imponente? Por que não praticar um método eclético? Se tivesse sido um dos médicos daqueles tempos, ele teria feito uma grandiosa dramatização. Sua receita teria sido uma festa para os eruditos. Vocês já leram o "Herbal" de Culpepper? Espero que nunca tenham tomado os remédios receitados por aquele herbolário erudito. Num só conjunto você achará uma dúzia de artigos, sendo cada um deles monstruoso, e em muitas receitas você achará ervas preparadas de modo muito curioso. Tais eram as receitas de tempos ainda mais antigos. Se não fizessem bem, pelo menos deixavam o paciente perplexo. E agora, qual é o evangelho que nos é proposto? É o evangelho da "cultura". Cultura! Esta, naturalmente, é o monopólio dos nossos superiores. É para ser desfrutada somente por pessoas do mais alto refinamento, que frequentaram a universidade e que têm dentro de si uma universidade inteira, com biblioteca e tudo. O evangelho, que é feito para ser bem claro até mesmo pelos simples transeuntes, é desprezado justamente para isso. Que Jesus Cristo veio ao mundo a fim de salvar os pecadores é uma doutrina por demais corriqueira. Que ele levou nossos pecados no seu próprio corpo no madeiro é doutrina rejeitada como ultrajante, imprópria para essa era inteligente! Oh! sim, conhecemos esses homens com seu olhar de desprezo. No entanto, por corriqueiro que fosse o remédio do nosso Senhor, era incomparável. Todos os filósofos da Grécia e todos os homens ricos e sábios de Roma, não poderiam ter elaborado outro grama dessa aplicação terapêutica. Somente Cristo possuía aquela saliva incomparável; somente os de-dos dele podiam formar aquele barro especial. É assim mesmo: se o evangelho parece lugar-comum, devemos nos lembrar de que não há outro semelhante a ele! Vocês que são sábios poderão achar outra coisa que seja comparável com ele?! Cristo assume o lugar do pecador, é feito pecado em nosso lugar a fim de que, em Cristo, nós fôssemos feitos a justiça de Deus; vocês podem oferecer alguma coisa comparável a isso? É Jesus quem resgata o seu povo da escravidão do pecado. Vocês podem, se quiserem, chamá-la de expiação mercantil, vocês podem ficar com rosto vermelho de raiva contra o sacrifício vicário; mas não conseguem oferecer nada igual. Quanto mais ridicularizarem o evangelho, tanto mais nos apegaremos a ele; e tanto mais o amaremos; isso porque a própria saliva da boca de Cristo é mais cara para nós do que os pensamentos mais penetrantes dos seus filósofos mais profundos.

Acho que estou escutando outro discordante dizer que o remédio era totalmente inadequado. O barro feito com a saliva seria positivamente inerte e não poderia exercer efeito terapêutico sobre um olho cego. Exatamente, estamos dispostos a escutar tudo isso. O barro por si só não tem eficácia; mas quando Jesus o emprega, servirá para o propósito dele. O homem, depois de ter se lavado no tanque, onde ficou o barro, voltou enxergando. Talvez pareça que o evangelho não pudesse renovar o coração e salvar do mal. Crer no Senhor Jesus Cristo parece ser um modo improvável de produzir a santidade. Os homens perguntam: "O que pode fazer a pregação evangélica no sentido de acabar com o pecado?" Indicamos aqueles que antes estavam mortos nos pecados, e que foram vivificados pela fé, e assim podemos comprovar a eficácia do evangelho mediante os fatos. "Oh", dizem, "a fé pode transformar o caráter? A crença pode subjugar a vontade? A confiança pode conduzir a mente a uma vida sublime e elevada?" Realmente ela faz isso; e, embora pareça inadequada, não deixa de ser fato comprovado que transformou homens em novas criaturas e pecadores em santos.

Outro cavalheiro sábio julga que o barro aplicado aos olhos seria até mesmo danoso. "Colar barro em cima dos olhos de um homem não o levaria a ver, mas acrescentaria outro impedimento para a luz." Da mesma forma, até ouvi dizer que pregar a salvação pela fé é contra a boa moralidade, e talvez até mesmo encorajasse os homens na prática do mal. Sendo eles mesmos morcegos sem vista, não conseguem enxergar que a situação é totalmente inversa? Acontece tão frequentemente, através do evangelho, as meretrizes ficarem castas, os ladrões ficarem honestos, e os beberrões ficarem sóbrios! Mediante este mesmo evangelho da fé, que alguns declaram ser conta a boa moralidade, é produzida a melhor moralidade. Ora! No mesmo fôlego censuram os crentes por serem puritanos, muito meticulosos e religiosos. Nada cria tantas boas obras quanto aquele evangelho que nos diz que a salvação não é das boas obras, mas da graça de Deus.

Outro opositor declara que o modo de nosso Senhor curar é contrário à lei. Aqui temos esse "homem chamado Jesus" literalmente fazendo barro apropriado para tijolos, na sábado. Não se tratava de uma violação chocante da lei? Dá-se a entender que nosso evangelho da fé em Cristo leva os homens a não levarem a lei a sério. Pregamos contra o conceito do mérito e dizemos que as boas obras não podem salvar as pessoas, e por isso somos acusados de rebaixar a dignidade da lei. Essa não é a verdade, pois nosso evangelho estabelece a lei e fomenta a verdadeira obediência. Quando o Salvador disse: "Vá lavar-se", e o cego se foi e se lavou, o Senhor Jesus lhe ensinara a obediência, e esta do melhor tipo - justamente a obediência da fé. Mesmo assim, embora pareça que estamos em conflito com a lei quando declaramos que mediante as obras da lei nenhuma pessoa vivente será justificada, estamos mesmo estabelecendo; isso porque a fé traz consigo o princípio e a mola mestra da obediência. Confiar em Deus é da própria essência da obediência. Aquele que crê em Jesus deu o primeiro passo na grande lição de obedecer a Deus em todas as coisas. Ver como Jesus sofreu a penalidade da lei e como ele honrou a lei em nosso lugar é ver aquilo que torna a lei mais gloriosa na nossa estima.

Portanto, ao encerrar esta divisão da mensagem: não levantem objeções capciosas contra o evangelho. Às vezes, dizemos aos empregados que nunca é aconselhável brigar com sua fonte de renda. Eu diria com toda a seriedade a quem tem o espírito ansioso: não ponham defeito no evangelho da salvação. Se vocês estiverem com atitude mental certa quanto à sua situação, estou com certeza de que vocês não farão isso. Quando achei o Senhor, estava encostado na parede de tal maneira, que, seja o que tivesse sido a salvação, eu a teria aceitado segundo as condições impostas por Deus, sem o mínimo questionamento. Se você for o homem que estou procurando, se você quiser receber a vista espiritual, não tentará impor condições a Jesus; você não pedirá unguento perfumado para os seus olhos; mas aceitará com alegria uma aplicação de barro da parte das mãos do Salvador. Você aceitará com alegria tudo quanto o Senhor receitar como o meio da salvação. Naquela aceitação, com boa vontade, acha-se uma grande parte da própria salvação; isso porque a sua vontade está em harmonia com a de Deus.

Oremos para que o Espírito Santo revele aos nossos corações o evangelho, e nos leve a amá-lo, a aceitá-lo, e a provar o seu poder.

III. Eu gostaria, agora, de levá-los mais um passo adiante. O MANDAMENTO CLARO É MUITO DIGNO DE NOTA. Nosso Senhor disse ao seu paciente: "Vá lavar-se no tanque de Siloé." O homem não enxergava, mas escutava. A salvação vem a nós, não por olharmos cerimônias, mas por ouvirmos a palavra de Deus. Os ouvidos são os melhores amigos que ainda restam para o pecador. É pela porta do ouvido que o príncipe Emanuel entra triunfantemente a cavalo na alma do homem. "Ouçam e a sua alma viverá."

A ordem era muitíssima específica. "Vá lavar-se no tanque de Siloé." E assim o evangelho é muitíssimo específico. "Creia no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo." Não se trata de: faça esta ou aquela obra, mas creia! Não é o caso de: Creia num sacerdote, e em algum ser humano, mas em Jesus. Se esse homem tivesse dito: "Vou me lavar no Jordão; pois foi ali que Naamã ficou livre da sua lepra", lavar-se teria sido inútil. O tanque de Siloé, cujas águas corriam mansamente, era algo pequeno e insignificante; para que ele deveria ir lá? Ele não pediu razões; obedeceu imediatamente e, ao obedecer, achou a bênção. Meu ouvinte, você precisa crer no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo. Não se trata de vinte coisas a serem feitas, mas somente uma única. A forma mais comprida do evangelho está registrada assim: "Aquele que crer e for batizado será salvo": a fé deve ser abertamente confessada mediante a obediência ao batismo preceituado pelo Senhor; mas a primeira questão é da fé. "Quem nele crer, tem a vida eterna." Isso é muito específico! Não há maneira de se enganar nessa questão.

Era, também, intensamente simples. "Vá lavar-se no tanque." Vá até o tanque e lave nele o barro. Qualquer menino pode lavar os olhos. A tarefa era a própria simplicidade. Assim também é o evangelho, claro como água. Você não precisa realizar vinte genuflexões ou postulações, sendo cada uma delas específica, nem precisa ir à escola para aprender uma dúzia de idiomas, cada um mais difícil do que o outro. Não, a ação salvífica é uma e singela. "Creia e viva." Confie, confie em Cristo; dependa dele, repouse nele. Aceite sua obra na cruz como a expiação pelo seu pecado, a justiça dele como a sua aceitação diante de Deus, sendo ele o deleite da sua alma.

Mas o mandamento também era distintivamente pessoal. "Vá lavar-se." Ele não poderia enviar um vizinho ou um amigo. Teria sido em vão ter dito: "Vou orar a respeito." Não, ele devia ir, e ele mesmo devia se lavar no tanque. Ouça-me, caro amigo: somente sua própria fé servirá para esse propósito; seus próprios olhos precisam ser abertos, e, por isso, você mesmo deve ir lavar-se no tanque em obediência a Jesus. Você deve crer pessoalmente na vida eterna. Alguns entre vocês ficam com a impressão de que podem ficar quietos e ainda esperar que Deus os salvará. Não possuo nenhuma autoridade para encorajar vocês numa inatividade tão rebelde. Jesus manda vocês irem e se lavarem, e como vocês ousam ficar sentados, imóveis? Quando o Pai vier acolher seu filho pródigo, acha-o na estrada. Ainda estava bem longe quando seu Pai o viu, mas seu rosto estava voltado na direção certa, e estava caminhando, da melhor maneira que podia, até a casa do seu Pai. Ele diz a vocês: "Desperta, ó tu que dormes, levante-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre ti" (Ef 5.14). Levante-se, homem. Fique em pé! O tanque de Siloé não virá até você - você precisa ir até ele. As águas não pularão do seu leito para lavarem os seus olhos, mas você deve se inclinar até elas, e lavar-se no tanque até ter saído o barro e você ficar enxergando. É uma diretiva muito pessoal, e trate-a dessa forma com todo o cuidado.
Foi uma diretiva que envolvia a obediência a Cristo. Por que devo ir para lá e me lavar ali? Porque ele assim lhe ordenou. Se você quiser que Jesus o salve, você deve fazer o que ele lhe manda. Você precisa aceitar Jesus para ser seu Senhor, se o aceitar como seu Salvador. Renda-se a Jesus neste momento. Nenhum outro servo teve um mestre assim. Você faz muito bem em curvar-se e beijar esses pés queridos que foram pregados à cruz por amor a você. Entregue-se de imediato ao controle de Jesus. O ato da fé é tanto mais aceitável por ser a obediência do coração a Jesus. Submeta-se a ele pela fé, eu lhe rogo.

A ordem era para o momento presente. Jesus não disse: "Vá lavar-se no tanque amanhã, ou daqui a um mês." Se o mendigo tivesse sido cego internamente, além de o ser externamente, poderia ter dito: "Minha cegueira rende dinheiro para mim. Vou ganhar um pouco mais como mendigo cego, e então vou ter meus olhos abertos." Ele dava valor em demasia à cegueira para se demorar. Se tivesse demorado, continuaria cego até ao dia do Juízo Final! Se alguém entre vocês achar que seria inconveniente ser convertido de imediato, não tenho mais esperança a seu respeito. Não posso lhe pregar uma salvação senão a salvação agora. Quem não quiser ser salvo hoje, não terá a probabilidade de ser salvo de modo algum. Vá, mendigo cego, vá ficar cego para sempre, se você não quiser receber sua visão hoje. Com você, pode ser "agora ou nunca." Hoje é o dia da salvação: o amanhã não passa de rede do diabo. Você ficará desesperadamente perdido se continuar adiando.

O mandamento, no caso do cego, era muito digno de nota. "Vá levar-se"; e assim também o mandamento espiritual que forma o paralelo com ele: "Creia no Senhor Jesus." Ó almas, ouçam a palavra que manda vocês confiarem no Salvador. Ele exclama: "Voltem-se para mim e sejam salvos, todos vocês, confins da terra" (Is 45.22). Oh! que Deus ajude você a fazer assim, neste mesmo instante! Você não quer? Bendito Espírito, leva-os a assim fazer, por amor a Jesus!

IV. Ao encerrar esta mensagem, convido vocês para A CONFIRMAÇÃO DO RESULTADO DELEITOSO. Acho que posso enxergar esse homem, acompanhado pelos seus vizinhos, indo até Siloé. Tinham visto Jesus colocar o barro nos olhos dele e o tinham ouvido dizer: "Vá a Siloé." Eles se ofereceram para acompanhá-lo e servir como guias do cego. A curiosidade os inspira. Ele chega ao tanque. Desce pelas escadas. Fica perto da água. Inclina a cabeça. Lava os seus olhos. Qual será o resultado? O barro já foi removido, mas o que mais aconteceu? De repente, o homem levanta o rosto e exclama: "Estou vendo! Consigo ver!" Que grito surgiu da parte de todos eles! "Que milagre!

Que maravilha! Hosana! Bendito seja Deus!" O homem exclama: "É verdade! Lavei-me e agora vejo!"

Esse homem conseguiu ver de imediato. Lavou-se e sua cegueira se foi. A vida eterna é recebida num só momento. Justificar o pecador nem sequer leva o tempo de um tique-taque de um relógio. Ó alma, no momento em que você crê, você passou da vida para a morte. Tão rapidamente como um raio, a transformação eficaz é realizada, a vida eterna entra e lança fora a morte. Quem dera que o Senhor realizasse a salvação agora! Esse homem foi capacitado a ver de imediato. Lemos a respeito de outro cego que, de início, via os homens como árvores que andavam, e somente depois de algum tempo enxergava com clareza cada homem; mas esse homem viu com clareza, e de imediato. Quem dera que vocês, que me escutam hoje, cressem, e vivessem imediatamente!

Esse homem sabia que conseguia ver. Não tinha a mínima dúvida quanto a isso, pois disse: "Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo!" Possivelmente, alguns entre vocês têm sido pessoas respeitáveis durante toda a sua vida, porém não sabem se são salvos ou não. Essa é uma religião insatisfatória. É um triste consolo! Alguém ser salvo e não saber! Certamente, deve ser uma salvação tão parca como o café da manhã daquele homem que nem sabia se o havia ou não. A salvação que provém da fé no Senhor Jesus Cristo é salvação consciente. Seus olhos serão abertos de tal maneira que vocês já não questionarão se conseguem ver. Quem dera vocês cressem em Jesus e soubessem disso e que estão salvos! Quem dera vocês entrassem num mundo novo, num estado de coisas totalmente novo! Que aquilo que antes era totalmente desconhecido para vocês, lhes fosse revelado nesta hora mediante a graça do Onipotente.

E outras pessoas percebiam que ele conseguia ver. Não sabiam como aconteceu. Alguns disseram: "É ele"; mas outros só podiam dizer: "Se parece com ele." Um homem que teve os olhos abertos é muito diferente ser do mesmo homem quando era cego. Se fôssemos tomar como exemplo um conhecido amigo, que não tem olhos, e se, de repente, olhos fossem colocados em seu rosto, provavelmente achássemos sua expressão tão alterada que dificilmente o consideraríamos a mesma pessoa, e, por isso, os vizinhos cautelosos apenas diziam: "Apenas se parece com ele." Apesar disso, todos tinham certeza de que ele podia ver. Nenhum dos fariseus lhe perguntou: "Você tem certeza de que consegue ver?" Aqueles seus olhos brilhantes, cheios de humor, inteligência e ironia, eram provas muito nítidas de que ele conseguia ver. Ah! Os amigos que você tem em casa saberão que está convertido, se realmente aconteceu; não vai ser necessário contar-lhes, pois descobrirão por conta própria. A maneira de você almoçar vai revelar isso. Vai mesmo! Você come com gratidão, e busca uma bênção nele. A maneira de você ir dormir revelará o fato. Lembro-me de um homem pobre que foi convertido, mas estava com medo terrível da esposa - não era o único homem do mundo a ter esse medo - e por isso receava que ela o ridicularizasse se ele se ajoelhasse para orar. Subia pelas escadas até o quarto só de meias para que não fosse ouvido, mas para ter uns poucos minutos de oração antes de ela saber que ele estava ali. Seu plano falhou. Sua esposa não demorou a descobrir tudo. A conversão genuína pode ser escondida tanto quanto uma vela acesa em um quarto escuro. Não se pode esconder a tosse. Se alguém estiver com tosse, deverá tossir; e se alguém tem graça no coração demonstrará graça em sua vida. Por que iríamos querer ocultar o fato? Oh! que o Senhor abra de tal maneira os seus olhos neste dia, que os amigos e os parentes saibam que seus olhos foram abertos!
Observam que o homem restaurado nunca mais perdeu a sua vista. Esse homem não ficou cego de novo. As curas realizadas por Cristo não são temporárias. Ouvi falar de muitos casos de pessoas que ficaram muito felizes por imaginarem que tivessem sido perfeitamente restauradas. A cura durou uma semana e, então, ficaram tão doentes como antes. A imaginação pode realizar grandes coisas por algum período; mas as curas de Cristo duram para sempre. Cremos que as pessoas possam nascer de novo, mas não que possam voltar a ser não nascidas. Sei que tudo quanto o Senhor fizer será para sempre! Ó meus amigos, eu nada tenho para pregar senão a salvação eterna! Venham a Cristo, e ele operará em vocês uma cura eficaz! Confiem nele totalmente, porque nele há a vida eterna.

Esse homem, quando recebeu a visão, estava disposto a perder tudo como consequência. Os judeus o expulsaram da sinagoga, mas quando Jesus encontrou esse homem, ele não se sentia aflito por causa dos judeus. Quase posso ver o rosto dele quando Jesus o achou: como ficou feliz ao adorar o seu benfeitor! "Pobre criatura! Coitadinho! Você foi expulso da sinagoga!" Ele responde: "Oh!, não tenha dó de mim. Eles podem me expulsar de cinquenta sinagogas, mas Cristo me achou. O que me importam as sinagogas agora que encontrei o Messias? Eu era cego quando frequentava a sinagoga, e agora, fora da sinagoga, tenho olhos para enxergar." Quando você se tornar cristão, o mundo o odiará e o desprezará; mas o que isso importa para você? Algumas pessoas não vão querer ter nada mais que ver com você. Talvez seja este o melhor favor que possam lhe fazer. Tivemos, certa vez, entre nossos membros, uma senhora com título de nobreza, que era uma graciosa irmã na fé. De início, senti um pouco de receio de que os grandes a desviassem da verdade. Pouco depois do seu batismo, ela mencionou que uma família da nobreza a tratava com frieza, e outros que tinham amizade íntima com ela deixaram de visitá-la. Ela aceitou isso com toda a naturalidade e só mencionou que esse fato tornava tanto mais viável a sua própria caminhada cristã porque agora não precisava sentir a dor de escutar as conversas ímpias daquelas pessoas, nem precisava assumir a responsabilidade de romper a relação. O mundo fez seu melhor favor ao filho de Deus quando o lança fora. Suas excomunhões são melhores do que as suas comunhões. O lado de fora da casa mundana é o seu lado mais seguro. Que amamos o mundo, e que o mundo nos odeia, são duas boas evidências da graça, e o homem pode ser agradecido por elas. "Portanto, saiamos até ele, fora do acampamento, suportando a desonra que ele suportou" (Hb 13.13).

Que coisa maravilhosa o Senhor Jesus fizera em favor desse homem, e que coisa maravilhosa ele está disposto a fazer em favor de todos os que nele confiam! Tinha sido uma obra de criação. Os olhos do homem não eram olhos, mas Jesus criou neles a vista. Curar um membro é uma coisa, mas criar um olho, ou capacitar aquilo que era mera semelhança de um olho a tornar-se um órgão de percepção é algo muito mais grandioso. Somos criados de novo em Cristo Jesus. Era, também, uma obra de ressurreição. Aqueles olhos estiveram mortos, e agora o Senhor Jesus os ressuscitou dentre os mortos. O Senhor Deus Onipotente pode realizar a criação neste momento, ele pode produzir ressurreição neste dia; e por que ele não deveria fazer isso? Hoje, estamos comemorando essas obras divinas. Esse primeiro dia da semana foi o princípio da criação feita por Deus. É também o dia em que nosso Senhor ressuscitou dentre os mortos, como as primícias daqueles que dormem. Esse dia do Senhor comemora o início da criação e o da ressurreição. Oremos para o Senhor Onipotente manifestar entre nós as obras de Deus neste dia. Ó Senhor, regenere, ilumine, perdoe e salve as pessoas, e assim glorifique o seu Filho! Amém, e amém.

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