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domingo, 13 de junho de 2010

A cura do cego de nascença (Sermão) – C. H. Spurgeon

/ On : 14:06/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

- Domingo de Manhã – 11 de Agosto de 1872 -

"Ninguém jamais ouviu que os olhos de um cego de nascença tivessem sido abertos" (João 9.32).

- Essa era a pura verdade: não havia caso registrado nas Escrituras, nem na história profana na ocasião em que esse homem falou, de qualquer pessoa que, tendo nascido cego, recebera a visão. Por volta de 1728, o dr. Cheselden, do Hospital São Tomé, pela primeira vez na história, conseguiu a maravilha de conceder a vista a um homem que era cego desde a juventude, e, a partir de então, a operação de catarata foi realizada várias vezes, com sucesso, em pessoas que nasceram cegas. O homem ao qual o Evangelho se refere, no entanto, tinha toda razão em afirmar que, em sua época, nenhuma cegueira de nascença tinha sido curada, nem por cirurgia nem por milagre. Sem dúvida, esse homem conhecia as questões relacionadas à cegueira, uma vez que tocava tão de perto a sua própria consciência, por habitar ele mesmo diante de sua sombra perpétua. Era o único homem na cidade que entendia completamente do assunto; mas, ai dele! Não achou nenhum fundamento para a esperança em todas as suas pesquisas. Tendo aprendido tudo o que era possível sobre a história da cegueira e de sua cura, esse homem chegou à convicção de que, entre todos aqueles que estavam na mesma triste situação que ele, ninguém fora curado - convicção bastante lastimável para ele. Nosso Senhor Jesus fez em favor dele aquilo que nunca antes se fizera em favor de pessoa alguma. Esse fato pode ser o consolo de muitas pessoas hoje que padecem acreditando que o caso delas é muito específico e sem esperança. O caso não é, provavelmente, tão solitário e especial como vocês acham; mas mesmo se pensarmos que sua suposição está correta, não há lugar para o desespero, posto que Jesus se deleita em abrir novos caminhos da graça. Nosso Senhor é inventivo no seu amor; projeta novos modos de misericórdia. Ele tem alegria em descobrir e aliviar aqueles cuja condição miserável já frustrou todos os outros tipos de ajuda. Sua misericórdia não está limitada pelos precedentes. Ele conserva o frescor e a originalidade do amor. Se você não conseguir descobrir nenhum caso em que uma pessoa como você já foi salva, não deve concluir que, por isso, necessariamente está perdido; ao contrário, você deve crer naquele que realiza grandes obras sobrenaturais, sim, e maravilhas inescrutáveis no caminho da graça. Ele faz segundo a sua vontade, e sua vontade é o amor. Tenha esperança de que ele, vendo você como um pecador singular, fará de você um troféu singular da sua capacidade de perdoar e de abençoar. Foi assim com os olhos desse homem: se nunca antes olhos nascidos mortos tivessem sido abertos, Jesus Cristo faria a obra, e tanto maior seria a glória que o milagre contribuiria para o seu nome. Ninguém precisa mostrar a Jesus o caminho, ele ama abrir caminhos por conta própria, e quanto maior o espaço para a sua misericórdia, tanto mais ele gosta da estrada.

Por isso, meu propósito é obter instrução da expressão específica que o homem curado empregou aqui. Que o Espírito Santo torne esta meditação verdadeiramente proveitosa para nós!

Em primeiro lugar, pedirei que vocês observem a peculiaridade do seu caso - era um homem nascido cego; em seguida, os aspectos especiais da sua cura ocuparão um pouco a nossa atenção; e, em terceiro lugar, apresentaremos algumas observações a respeito da condição singular do homem curado a partir do momento em que seus olhos foram abertos.

I. Primeiro, então: A PECULIARIDADE DO SEU CASO.

Não era um caso de falta de luz; isso poderia ter sido rápida e facilmente solucionado. Havia bastante luz ao seu redor, mas o pobre homem não tinha olhos. Ora, existem milhões de pessoas no mundo que possuem pouca ou nenhuma luz; escuridão cobre a Terra, e trevas pesadas cobrem o povo. A razão de ser da igreja é disseminar a luz em todas as direções, e ela está bem qualificada para essa obra. Não devemos deixar qualquer pessoa perecer pela falta de conhecer o evangelho. Não temos a capacidade de dar olhos às pessoas, mas podemos lhes transmitir a luz. Deus nos tem colocado entre seus candeeiros de ouro e dito: "Vocês são as luzes do mundo." Ora, acredito que haja pessoas que possuem olhos, mas que, apesar disso, enxergam bem pouco por causa da falta de luz; são filhos de Deus, mas andam nas trevas e não enxergam luz nenhuma; Deus lhes deu a faculdade espiritual da vista, mas por enquanto, estão lá no fundo das minas, na região da noite e da sombra da morte. Estão detidas no Castelo das Dúvidas, onde bem poucos raios fracos de luz conseguem, com muito esforço, penetrar naquela masmorra. Andam como homens na neblina, vendo, porém não vendo. Escutam a pregação de doutrinas que não são a pura verdade, o trigo joeirado da aliança e, estando seus olhos cegados pela palha e pela poeira, ficam desnorteadas, como que perdidas num labirinto. Existem pessoas em demasia que, nesta luz tão obscura, tecem por conta própria teorias de dúvida e de medo que aumentam o sombrio; suas lágrimas maculam as janelas da sua alma. São como homens que instalam persianas e venezianas para excluir o sol. Que vocês e eu tenhamos o papel, mediante a explicação e o exemplo, por meio de ensinarmos com a linguagem dos lábios, e com a linguagem que fala mais alto (a das nossas vidas), de disseminarmos a luz em todas as direções, a fim de que se regozijem aqueles que habitam na meia-noite espiritual, porque para eles raiou a luz.

Além disso, não se trata de um homem cuja cegueira foi provocada por um acidente. Neste caso, também, a ajuda dos homens pode ser de grande utilidade. Existem pessoas que, feridas pela cegueira, ainda se recuperaram. Há um exemplo notável disso na história bíblica, quando Elias feriu de cegueira um exército inteiro, mas depois orou a Deus em favor deles, e eles recuperaram a vista imediatamente. Existem muitas coisas que podemos fazer nos casos de a cegueira ser atribuível mais às circunstâncias do que à natureza. Por exemplo, no mundo inteiro existe preconceito. As pessoas condenam a verdade antes de ouvi-la; formam opinião a respeito do evangelho, sem terem estudado o próprio evangelho. Coloquem o Novo Testamento na mão delas, exortem-nas a serem imparciais, e a investigá-lo com seu melhor juízo, e a buscar a orientação do Espírito Santo, e acredito que muitos enxergariam seus próprios erros e se endireitariam. Existem pessoas, com espírito sincero, cujas percepções mentais são cegadas pelos preconceitos, que seriam muito graciosamente ajudadas a enxergar a verdade se a colocássemos diante delas com ternura e sabedoria. Os preconceitos da educação afetam muitos neste país. Somos, até a medula dos ossos, um povo muito conservador, que mantemos firme o erro estabelecido, e que suspeitamos de qualquer verdade que ficou negligenciada durante longo tempo. Nossos compatriotas não são facilmente levados a acolher a verdade mais óbvia, a não ser que tenha estado na moda durante um período muito longo. Talvez seja melhor assim do que sermos levados por todo o vento de doutrina, e corrermos atrás de todas as novidades, como fazem alguns; mas, por causa disso, o evangelho é obrigado, neste país, a combater uma grande massa de preconceitos. "Tais eram os meus pais, e assim também eu devo ser." "Nossa família sempre tem sido desse jeito, e, por isso, também serei eu, bem como os meus filhos." Por mais certa que seja a verdade que é apresentada diante da mente de algumas pessoas, nem sequer lhe prestarão ouvidos, porque homens de idade, homens bons e homens de autoridade já resolveram o contrário. Tais pessoas tomam por certo que são corretas por herança, e ortodoxas por causa dos ancestrais; não podem aprender coisa alguma: alcançaram a plenitude da sabedoria, e nessa posição pretendem ficar. A igreja de Deus deve procurar remover todos os preconceitos dos olhos humanos, de onde quer que tenham surgido. Podemos curar semelhante oftalmia, está dentro da nossa esfera fazer essa tentativa. Assim como fez Ananias, podemos remover as escamas dos olhos de um Paulo que ficou cego. Ao passo que Deus tem dado olhos, nós podemos lavar o pó deles. Conviva com seus conhecidos, conte-lhes que a fé o salvou, deixe que eles vejam as boas obras que a graça de Deus produz em você, e assim como o evangelho removeu dos olhos humanos as escamas do judaísmo, da filosofia grega, da soberba romana, assim também, sem dúvida, neste país e nesta era, ele acabará logo com os preconceitos que alguns estão empregando seus máximos esforços para fomentar.

Mas o caso desta narrativa não era o de um homem que ficou cego por acidente, e, em consequência, tipificasse um entendimento escurecido pelo preconceito. O homem era cego de nascença; a cegueira dele era de natureza, e por isso desafiava toda a perícia cirúrgica; e, quanto à cegueira provocada pela depravação humana, a cegueira que nos acompanha desde a nascença, e continua conosco até o momento em que a graça de Deus nos leva a nascermos de novo, posso dizer que, desde o início do mundo, nunca se ouviu falar que alguém tivesse aberto os olhos de quem nasceu com cegueira espiritual, a qual faz parte da sua natureza. Se for algo de fora que me cegar, posso me recuperar; mas se for algo de dentro que exclui a luz, quem é aquele que poderá me restaurar a vista? Já que estou cheio de tolice desde o início da minha existência, já que faz parte da minha natureza estar privado de entendimento, devo estar em trevas muito densas! Quão desesperançada é a imaginação de que possa chegar a ser removida a não ser por uma mão divina! Por mais que pensemos ou falemos, cada um de nós, pela própria natureza, nasceu cego para as coisas espirituais; somos incapazes de perceber Deus, incapazes de perceber o evangelho do seu Filho amado; incapazes de entendermos o caminho da salvação pela fé de modo tão prático que sejamos salvos por ele. Temos olhos, mas não vemos; possuímos entendimentos, mas estes estão pervertidos de modo que são como balanças fora do eixo, ou como uma bússola que se esquece do polo. Julgamos, mas julgamos injustamente; pela nossa natureza, colocamos o amargo no lugar do doce, e o doce no lugar do amargo; trocamos as trevas pela luz, e a luz pelas trevas; e isso é próprio da nossa natureza, faz parte integrante da nossa própria constituição; não é possível tirar do homem tais coisas, porque fazem parte do próprio homem - é a sua natureza.

Se você me perguntar por que a natureza do homem é tão obscurecida, respondo que é porque sua natureza inteira é perturbada pelo pecado; tendo sido pervertidas suas demais faculdades, estas atuam contra o seu entendimento e o impedem de agir de modo apropriado. Dentro de nós existe uma confederação da iniquidade, que ilude o juízo e o leva cativo à disposição mental maligna. Por exemplo, nosso coração carnal ama o pecado, a disposição da nossa alma não renovada tende ao mal. Fomos concebidos no pecado e formados na iniquidade, e seguimos tão naturalmente o mal quanto o porco procura a lama. O pecado exerce sobre nós um fascínio, e por ele somos presos como as aves com o chamariz, ou os peixes com a isca. Mesmo nós que fomos renovados, precisamos vigiar o pecado, porque nossa natureza se inclina tão facilmente a ele. Com muita diligência e grande labuta, vamos subindo pelas sendas da virtude, mas os caminhos do pecado são tão fáceis para nossos pés; isso não acontece porque a nossa natureza caída se inclina naquela direção? É só você relaxar a sua energia e soltar sua alma do ancoradouro, e ela vai imediatamente se deixar levar para baixo, em direção à iniquidade, pois é assim que flui a correnteza da natureza. É necessária muita energia para nos projetar para cima, mas para baixo, descemos tão facilmente como uma pedra cai no chão. Você sabe que é assim; o homem não é como Deus o fez; pelo contrário, sua disposição de ânimo é corrupta. Ora, e é certo que a disposição mental muitas vezes altera o juízo. A balança é montada de modo injusto, porque o coração suborna a cabeça. Mesmo quando imaginamos que somos muito imparciais, temos tendências que não percebemos. Nossa disposição, como a de Eva, seduz nosso entendimento, e o fruto proibido é considerado bom para comer. A fumaça do amor ao pecado deixa cego nosso olho mental. Nosso desejo é frequentemente pai das nossas conclusões, e quando achamos que estamos julgando com equidade, realmente estamos auxiliando nossa natureza mais baixa. Pensamos que determinada coisa é melhor porque gostamos mais dela; não condenamos com grande severidade certa falta porque temos a mesma tendência; nem queremos recomendar uma certa qualidade boa porque custaria caro demais para nossa carne alcançá-la; ou porque não alcançá-la pudesse ser um golpe forte demais contra nossa consciência. Ah, enquanto nosso amor natural ao pecado cobre de catarata o olho da mente, e até mesmo destrói o nervo ótico, não precisamos estranhar porque essa cegueira não pode ser removida por nenhuma cirurgia humana.

Além disso, nosso orgulho e autoconfiança naturais se revoltam contra o evangelho; cada um de nós é um indivíduo muito importante. Mesmo que o nosso serviço seja varrer a rua, possuímos uma dignidade do próprio eu que não aceita ofensas. Os farrapos de um mendigo podem cobrir tanto orgulho quando a toga de um vereador. A presunção não está restrita a uma única posição ou graduação na vida. Todos nós, na soberba da nossa natureza, nos consideramos tanto grandiosos quanto bons, e repudiamos como irracional e absurda qualquer coisa que pudesse nos rebaixar de alguma maneira; não conseguimos ver nada assim, e ficamos zangados quando outros a percebem. Aquele que nos leva a suspeitar que nada somos, ensina uma doutrina difícil de ser entendida. A soberba não entende, e não quer entender, as doutrinas da cruz, porque elas dobram os sinos de sua morte. Como consequência da nossa autossuficiência natural, todos aspiramos entrar no céu mediante nossos próprios esforços e merecimentos. Talvez neguemos o mérito humano como doutrina, mas a carne e o sangue o desejam ardentemente; queremos salvar a nós mesmos através dos sentimentos, já que não podemos fazê-lo através das ações, e nos apegamos a isso como à própria vida. Quando o evangelho chega com seu machado afiado e diz: "Essa árvore precisa ser derrubada! Você produz uvas que são fel e maçãs que são venenosas, você precisa se arrepender das suas próprias orações, você precisa chorar por causa das suas lágrimas, seus pensamentos mais santos são ímpios, você precisa nascer de novo, você precisa ser salvo mediante os méritos de outra pessoa, mediante o livre favor imerecido de Deus", então, de imediato, toda a nossa hombridade, a nossa dignidade e a nossa própria excelência se levantam, indignadas, e resolvemos que nunca aceitaremos a salvação em semelhantes condições. A recusa assume a forma da falta de capacidade de entender o evangelho. Não compreendemos o evangelho, e não podemos entendê-lo, porque o conceito que temos de nós mesmos se interpõe como obstáculo no caminho. Começamos com idéias errôneas a respeito do nosso próprio eu, e assim tudo se transforma em confusão, e nós mesmos somos cegados.

Além disso, amados, uma razão pela qual nosso entendimento não vê as coisas espirituais, e não pode mesmo enxergá-las, é porque as coisas espirituais nos chegam pelos nossos sentidos. Imaginemos que alguém adote uma régua de trinta centímetros como seu padrão de tudo o que existe na natureza, e concebamos que esse homem, com essa régua no bolso, se torne astrônomo. Ele olha através do telescópio e observa as estrelas fixas. Quando ele tira a sua régua, dizem-lhe que essa régua está totalmente fora de propósito em conexão com a abóbada celeste, que ele deve deixar de lado os metros e centímetros e calcular em termos de milhões de quilômetros. Ele fica indignado por tamanho fanatismo. É um homem de bom-senso, e uma régua de trinta centímetros é uma coisa que ele consegue ver e manipular; os milhões de quilômetros são questões de fé, posto que ninguém jamais viajou por to-dos eles, e ele não acredita neles. Esse homem fecha seus próprios olhos; seu entendimento não pode se desenvolver dentro de tais parâmetros. É assim que medimos o trigo de Deus com nossa própria cesta; não podemos ser levados a acreditar que "assim como os céus são mais altos do que a Terra, assim os seus caminhos são mais altos do que os nossos caminhos, e os seus pensamentos são mais altos do que os nossos pensamentos." Se achamos que é difícil perdoarmos, sonhamos que Deus está na mesma situação. Propomonos a medir o oceano do amor divino em termos de quantos dedais ele enche, e quanto às verdades sublimes da revelação, nós as estimamos em termos de gotas no balde. Nunca poderemos alcançar os pensamentos e as coisas de Deus, enquanto persistimos em julgar segundo a vista dos olhos, segundo a medida de uma mente carnal, amarrada à terra.

Além disso, nosso entendimento também ficou desarmado e desgrenhado por estarmos tão distantes de Deus, de modo que, como consequência, não cremos nele. Se habitássemos perto de Deus e reconhecêssemos que nele vivemos, nos movimentamos e existimos, aceitaríamos como verdade tudo o que ele falou, porque foi ele quem falou; e nosso entendimento seria esclarecido imediatamente pelo seu contato com a verdade e com Deus. Mas, agora, pensamos em Deus como uma pessoa remota; por natureza, não temos nenhum amor por ele, nem nos importamos com ele. Para alguns pecadores, a melhor notícia que poderiam receber seria que Deus tivesse morrido; eles se regozijariam com isso mais do que com qualquer outra coisa, com a idéia de que Deus não existisse. O tolo sempre diz "não há Deus" no seu coração, mesmo quando não ouse dizer isso com a sua língua. Todos nós, segundo a nossa natureza, gostaríamos de estar livres de Deus; é somente quando o Espírito de Deus vem e nos aproxima de Deus, e nos dá fé no nosso Pai celeste, que nos alegramos e nos regozijamos nele, e conseguimos entender a sua vontade.

Por isso, nossa natureza inteira, por ser caída, opera para cegar os nossos olhos, e, portanto, a abertura do olho do entendimento humano para as coisas divinas permanece sendo uma impossibilidade para qualquer poder que não seja divino. Acredito que alguns irmãos pensem que se pode abrir os olhos cegos do pecador mediante a retórica. Seria a mesma coisa ter esperança de cantar a uma pedra até dotá-la de sensibilidade. Sonham que você deve encantar um homem com linguagem teórica esplêndida, e então as escamas cairão dos seus olhos. O auge é de engenhosidade maravilhosa, e a peroração, mais maravilhosa ainda; se os homens não se deixam convencer assim, o que surtiria efeito? Terminar um discurso com uma exibição de fogos de artifício, isso não iluminará? O triste é que bem sabemos que os pecadores têm sido ofuscados mil vezes por toda a pirotecnia da oratória, mas não deixaram de permanecer tão espiritualmente mortos como antes. Alguns têm sustentado a noção de que devemos fazer a verdade penetrar nas mentes das pessoas mediante argumentos; que se você conseguir colocar as doutrinas do evangelho diante delas de forma clara, lógica e demonstrativa forçosamente irão ceder. Mas, na realidade, ninguém tem seus olhos abertos por meio de silo-gismos. A razão, por si mesma, não dá a ninguém o poder de ver a luz do céu. Sem a graça de Deus, as declarações mais claras e a exposição mais singela são igualmente em vão.

Dou testemunho de que tentei tornar a verdade "clara como água", como diz nosso provérbio, mas meus ouvintes não a enxergaram apesar de tudo. A melhor declaração da verdade não removerá, por si só, a cegueira de nascença, nem capacitará os homens a olharem para Jesus. Nem os mais sinceros apelos evangélicos, nem os mais veementes testemunhos da sua verdade convencerão o entendimento das pessoas. Todas essas coisas têm seu devido lugar e seu uso, mas não têm poderes intrínsecos de iluminar o entendimento de modo salvífico. Trago meu amigo cego a certo lugar elevado e o convido a contemplar aquela paisagem. "Veja como o rio prateado vai costurando seu caminho através dos campos cor de esmeralda. Veja como aquelas árvores ali formam um bosque cheio de sombras; veja com quanta sabedoria aquele jardim, mais perto, é cultivado com perfeição; e com quanta nobreza o castelo senhorial distante se eleva naquela colina de beleza incomparável." Veja: ele sacode a cabeça; não tem nenhuma admiração pela cena. Lanço mão de expressões poéticas, mas nem assim ele compartilha do meu deleite. Experimento palavras singelas e lhe digo: "Ali está o jardim, lá está o castelo, e ali está o bosque, e o rio - você não os vê?" "Não", ele não consegue ver nenhum deles e nem sabe qual a aparência deles. O que está de errado com esse homem? Não descrevi bem a paisagem? As minhas explicações não foram boas? Não lhe dei meu próprio testemunho de que andei por aquela senda no bosque e que velejei naquele rio? Ele sacode a cabeça, e minhas palavras foram em vão. Cheguemos à seguinte convicção a respeito dos pecadores - senão martelaremos sem nada conseguir: tenhamos a certeza de que existe algo de errado com o próprio pecador que nós não conseguimos curar, e seja o que fizermos com ele, não conseguiremos que ele seja salvo antes que seja curado aquele mal. Sentamos esse fato, pois ele nos forçará para fora de nós mesmos; ele nos levará ao nosso Deus, nos obrigará a recorrer ao forte para receber forças, e nos ensinará a buscar um poder além do nosso e é então que Deus nos abençoará, porque então teremos a certeza de dar toda a glória ao seu nome.

Mas devo deixar esse caso: e o caso da cegueira arraigada na natureza, e que não pode ser afetada pela perícia humana.

II. Agora, dedicaremos um pouco de atenção ÀS ESPECIALIDADES DA CURA, não exatamente da cura desse homem, mas da cura de muitos que temos visto; e a primeira é:usualmente é levada a efeito pelos meios mais simples. Os olhos do homem foram abertos com um pouco de barro aplicado a eles e então removido com a lavagem no tanque de Siloé. Deus abençoa as menores coisas para a conversão das almas. Às vezes, o pregador acha humilhante quando, depois de pensar: "Pois bem, realmente preguei um sermão bastante bom daquela vez", descobre que Deus não se importa a mínima com ele ou com seu sermão, e que foi uma observação impensada que fez na rua, que nem sequer pensava que tivesse algum valor, que Deus abençoou; que quando pensava que tivera o maior sucesso, ele nada fizera, e que quando pensava ter fracassado, então Deus o abençoou. Muitas almas tiveram os olhos abertos através de uma instrumentalidade que nunca sonhou ser tão útil; e todo o caminho da salvação é, por si só, comparável ao barro e à saliva que o Salvador usou. Não vejo muitas almas convertidas por tomos de teologia sistemática. Acolhemos muitos membros novos nesta igreja, mas nunca veio uma pessoa que tivesse se convertido por causa de um debate teológico profundo. É muito raro ouvirmos falar de um número muito significante de conversões feitas por pregadores muito eloquentes - raríssimo mesmo. Apreciamos a eloquência, e nada temos contra ela, mas parece que não tem poder espiritual para iluminar o entendimento, nem agrada a Deus usar a excelência das palavras para a conversão. Quando Paulo deixou de lado a sabedoria humana e disse que não empregaria a excelência da linguagem, ele simplesmente deixou de lado aquilo que não teria sido muito útil para ele. Quando Davi deixou de lado a armadura de Saul, e pegou na funda e na pedra, matou o gigante; e hoje, os gigantes não são vencidos por campeões vestidos da armadura de Saul, assim como não o eram então. Precisamos nos ater às coisas simples, ao evangelho claro, pregado com clareza. O barro e a saliva não eram uma combinação artística, o bom gosto não era encantado por eles, nem a cultura era gratificada, porém por essas coisas, mais uma lavagem em Siloé, os olhos se abriram - e é assim que Deus, pela loucura da pregação, se agradou para salvar aqueles que crêem.

Em segundo lugar, em todos os casos se trata de uma obra divina. Neste caso, ficou evidente que foi o Senhor Jesus Cristo que abriu, literalmente, os olhos do homem, e, espiritualmente, é sempre a sua obra mediante o Espírito Santo. É ele quem dá ao homem conhecer as coisas espirituais, e abraçá-las pela fé. Nenhum olho é aberto para ver Jesus, a não ser pelo próprio Jesus. O Espírito de Deus opera em nós todas as nossas coisas boas. Não nos afastemos dessa crença em circunstância alguma. As exigências dos sistemas doutrinários de alguns homens exigem que atribuam ao pecador determinada medida de poder; mas nós sabemos que ele está morto no pecado e totalmente sem forças. Irmãos, podem alterar seu sistema de teologia, mas não repudiem a verdade que agora está diante de nós, pois além de ela ser revelada na Palavra de Deus, ela é confirmada pela nossa própria experiência diária. É o Espírito que vivifica e ilumina. A cegueira da alma somente cede diante da voz que falou na antiguidade: "Haja luz."

Em seguida: essa abertura dos olhos é frequentemente instantânea, e quando o olho fica aberto, vê com tanta perfeição como se sempre tivesse visto. Vi, há poucas horas, algo que acredito ter sido a abertura dos olhos de uma alma que buscava a Cristo. Duas interessadas me procuraram no escritório pastoral; só tinham ouvido o evangelho aqui durante um breve período, mas ficaram impressionadas por ele. Expressaram seu pesar por estarem de mudança para um lugar distante, mas expressaram sua gratidão por terem tido a oportunidade de ficar aqui, mesmo por pouco tempo. Fiquei animado pelos bondosos agradecimentos delas, mas me senti ansioso para que uma obra mais eficaz ocorresse com elas, e por isso lhes perguntei: "Vocês realmente crêem no Senhor Jesus Cristo? Vocês estão salvas?" Uma delas respondeu: "Esforcei-me muito para crer." Continuei: "Não, isso não serve. Você já falou ao seu pai que você estava se esforçando para crer nele?" Reconheceram que semelhante linguagem teria sido uma ofensa. Em seguida, coloquei o evangelho diante delas com muita clareza, na linguagem mais singela que pude, mas uma delas disse: "Não consigo me dar conta, não consigo me dar conta de estar salva." Passei, então, a falar: "Deus dá testemunho do seu Filho e diz que quem confiar em seu Filho está salvo. Vocês vão fazer dele um mentiroso agora, ou vocês vão crer em sua palavra?" Enquanto eu falava, uma delas teve um sobressalto e nos surpreendeu ao exclamar: "Senhor, vejo tudo isso; estou salva. Oh! dê graças a Deus por mim, por me ter mostrado isso e por me ter salvado; estou enxergando tudo." A irmã estimada que me trouxera essas jovens amigas ajoelhou-se com elas enquanto, de todo o coração, bendizemos e engrandecemos o Senhor. Uma das duas irmãs, no entanto, não conseguira enxergar o evangelho da maneira que fizera a outra, embora eu tenha certeza de que ela chegue a ver. Não parece estranho que, embora ambas escutassem as mesmas palavras, só uma saiu para a luz clara, a passo que a outra tivesse que esperar nas trevas? A mudança que sobrevém ao coração quando o entendimento capta o evangelho quase sempre se reflete no rosto, e nele brilha como a luz do céu. Semelhantes almas recém-iluminadas exclamam em muitas ocasiões: "Mas, Senhor, é tão claro; como é que não o enxerguei antes? Agora entendo tudo quanto já li na Bíblia, embora não me importasse com ela antes. Tudo isso surgiu num só minuto, e agora vejo o que nunca percebi antes." Estou apenas citando um caso, porque é um entre milhares que temos visto, no qual os olhos foram instantaneamente abertos. Só posso comparar o pecador iluminado com uma pessoa que ficou trancada numa masmorra escura e que nunca vira a luz, e, de repente, seu libertador abre uma janela e o prisioneiro fica atônito e pasmado por aquilo que vê ao olhar, lá longe, as colinas e os rios. Para o crente, a vista outorgada da parte do céu é uma dádiva tão superlativa, e aquilo que lhe é revelado o deixa tão assombrado, que dificilmente percebe onde está. Muito frequentemente, quando Cristo abre os olhos das pessoas, a obra é feita num só momento, e feita de modo completo naquele momento, embora haja casos nos quais se trata de uma luz mais gradual; de início, os homens são vistos como árvores ambulantes, e depois, aos poucos, uma pelica após outra é retirada do olho espiritual.

Ora, vocês não devem se admirar se a luz chegar de modo tão repentino que seja uma sensação totalmente nova para o homem, e por isso o surpreender. Você se lembra do primeiro hálito de vida espiritual que você já teve? Acho que ainda guardo lembrança dele. Você se lembra da primeira vista que você já teve de Cristo? Oh, por certo você se lembra dela. Existe, fixada na memória de alguns entre nós, a lembrança da primeira vez que vimos o mar e da primeira vez que contemplamos os Alpes, mas essas coisas não eram nada; achamos que continuavam sendo meros pedaços deste velho mundo, e que somente vimos um pouco mais daquilo que tínhamos visto antes; a conversão, no en-tanto, abre diante nós um mundo novo: ela nos ensina a perscrutar o invisível e ver coisas não vistas pelo olho mortal. Quando recebemos olhos novos, vemos mil coisas que nos deixam totalmente atônitos, e ao mesmo tempo nos deleitam. Você estranha que os jovens convertidos fiquem emocionados? Eu não estranho, nem condeno, pois gostaria que houvesse um pouco mais de emoção nas nossas reuniões de culto. Quem escuta, hoje em dia, o grito: "O que preciso fazer para ser salvo?" ou quem escuta uma alma dizendo: "Achei aquele sobre quem Moisés escreveu na lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram"? (Jo 1.45). Demos bastante liberdade à obra do Espírito de Deus, e cremos que, quando ele chegar, os homens nem sempre agirão segundo as regras sóbrias do decoro, mas irromperão por elas, e até mesmo cairá sobre eles a suspeita de estarem bêbados, mas por falarem con-forme homens na sua mentalidade usual não têm a probabilidade de estar. É uma coisa estranha e maravilhosa, para os homens, quando o Espírito de Deus lhes abre os olhos, e não devemos estranhar que mal saibam o que dizem e que se esqueçam de onde estão.

Uma coisa é certa: quando os olhos são abertos, é um acontecimento muito claro para o próprio homem. Outros podem duvidar se seus olhos foram abertos, mas ele sabe que sim; quanto a isso, não tem a mínima dúvida. Quando o Senhor, na sua infinita misericórdia, visita um espírito que passou longo tempo encerrado na escuridão, a transformação fica sendo tão grande, que ele não precisa perguntar: "Estou transformado, ou não?", mas ele mesmo recebe da sua própria consciência a garantia disso.

Uma vez que o homem recebeu olhos para ver, possui uma faculdade que é capaz de uso abundante. O homem que consegue ver os fariseus, não demoraria muito para ver Jesus. Aquele cujos olhos foram abertos, consegue ver, não somente as árvores e os campos ao seu redor, mas também consegue contemplar os céus e o sol glorioso; e uma vez que alguém recebe luz espiritual, possui imediatamente capacidade para enxergar os mistérios divinos; verá o mundo do porvir, e as glórias que ainda serão reveladas. Aqueles olhos recémcriados são os que verão o Rei na sua beleza, e a terra que está muito distante; tem a faculdade de tudo quanto será contemplado no dia da revelação do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo.
Oh, que obra maravilhosa é esta! Que todos nós o conheçamos pessoalmente. Faço esta pergunta: Nós a conhecemos? Nossos olhos já foram abertos assim?

III. E, por fim, chegamos ao terceiro tema: A CONDIÇÃO DO HOMEM CURADO.

Quando seus olhos acabaram de ser abertos, tinha fortes impressões em favor do ser glorioso que o curara. Ele não sabia quem era esse ser, mas sabia que era uma pessoa muito boa, talvez um profeta, e quando chegou a conhecê-lo melhor, tinha certeza de que era o próprio Deus, e prostrou-se e o adorou. Ninguém nunca teve seus olhos abertos assim sem sentir amor intenso por Jesus, e, mais ainda, sem crer na sua divindade, sem adorá-lo como o Filho de Deus. Não queremos ser descaridosos, mas ainda nos sobra um pouco de bom-senso. Nunca conseguimos enxergar como um homem pode ser cristão sem crer em Cristo, nem como se pode dizer que um homem crê em Cristo quando crê apenas minimamente nele - acolhe sua humanidade, mas rejeita a sua divindade. Precisa haver uma fé verdadeira no Filho de Deus, e uma pessoa continua cega e nas trevas se não se prostrar, como fez o homem nesta história, e adorar ao Deus vivo, contemplando a glória de Deus na face de Jesus Cristo, dando glória a Deus porque achou tanto um Príncipe quanto um Salvador na pessoa de Jesus Cristo, que entregou a sua vida em favor do seu povo. Oh! tenho certeza de que os olhos de vocês foram abertos, que vocês amam a Jesus hoje, vocês sentem seu coração estremecer só ao pensar nele, e sua alma inteira o busca, que vocês estão convencidos de que, já que ele lhes abriu os olhos, aqueles olhos pertencem a ele, bem como a totalidade do ser de cada um de vocês.

Esse homem, portanto, passou, a partir daquele momento, a ser um confessor de Cristo. Eles o interrogaram, e ele não falou envergonhado, nem escondeu as suas convicções, mas respondeu prontamente às perguntas. Estevão foi o primeiro mártir, mas esse homem era certamente o primeiro confessor, e diante dos fariseus ele expressou o caso de modo nítido e inteiro, na cara deles, em linguagem singela. E da mesma maneira, amados, se o Senhor nos abriu os olhos, não hesitaremos em declarar o fato. Ele o tem feito, bendito seja o seu nome! Nossa língua bem mereceria ser ferida de silêncio eterno se hesitássemos em declarar o que Jesus tem feito por nós. Exorto vocês, que receberam graça da parte de Cristo Jesus, a se tornarem confessores da fé, a reconhecerem Cristo, conforme devem fazer. Sejam batizados e reunidos com o povo de Cristo, e depois, seja em que companhia estiverem, e por mais que as outras pessoas falem a favor dele ou contra ele, tomem posição e digam: "Ele abriu meus olhos e bendigo o seu nome."

Agora, esse homem se torna defensor de Cristo, além de confessor; e um defensor muito capaz, também, porque os fatos que lhe serviam de argumentos deixavam frustrados os seus adversários. Diziam uma coisa e outra, mas ele respondeu: "Não me cabe definir se essas coisas são a verdade, mas Deus atendeu a esse homem, portanto, esse homem não é pecador como vocês dizem; ele abriu os meus olhos, por isso, sei de onde ele provém: ele forçosamente veio da parte de Deus." Faz muito tempo que estamos argumentando contra a infidelidade teológica, heresia, com argumentos que nunca conseguiram nada. Acredito que os céticos catam no chão suas flechas embotadas e as atiram de novo contra o escudo da verdade; receio que o púlpito cristão tenha sido o grande instrutor na heresia por temos ensinado aos nossos membros argumentos que eles nunca teriam conhecido se nós não os tivéssemos repetido com a idéia de respondermos a eles. Mas, amados, vocês nunca poderão enfrentar a infidelidade teológica a não ser com fatos. Con-tem o que Deus tem feito em favor de vocês, e comprovem isso com sua vida de santidade. Contra as vidas santas dos cristãos, a incredulidade não tem poder. Fiquem em falange cerrado, cada um com sua espada do viver cristão, revestidos da armadura do poder do Espírito Santo, e os ataques feitos pelos seus inimigos, pois mais desesperada que seja a malignidade dele, fracassarão totalmente. Que Deus nos conceda, assim como concedeu a aquele homem, que aprendamos a arte de argumentar em favor de Cristo mediante o testemunho pessoal.

Pois bem, aconteceu que aquele homem cujos olhos foram abertos, foi expulso da sinagoga. Os pássaros salpicados sempre são expulsos à força pelos demais. Uma das piores coisas que pode acontecer com um homem, neste mundo, é saber demais. Se você não consegue se manter em dia com os tempos atuais, você pode ser tolerado, mas, se você ficar em pouco à frente do seu tempo, poderá esperar receber maus tratamentos. Seja cego entre os cegos, é o próprio ditame da prudência se é para você salvar a sua pele. É algo inseguro manter os olhos abertos entre os cegos, posto que estes não acreditarão nas suas asseverações, e você será considerado muito dogmático, e, uma vez que eles nada enxergam, vocês não têm nenhuma base em comum para o argumento, e chegarão imediatamente a altercações; e se os cegos forem maioria, as probabilidades são que você seja expulso pela porta ou pela janela, e que tenha de viver alhures. Quando Deus abre os olhos de um homem para enxergar coisas espirituais, os outros logo dizem: "De que esse elemento está falando? Nós não vemos o que ele vê", e se esse homem for muito ingênuo, volta-se a esses cegos, e diz: "Vou lhes explicar agora." Caro amigo, você desperdiçará os seus esforços, pois eles não conseguem ver. Se um homem for cego de nascença, você não precisará falar com ele a respeito da escarlata e da malva e da magenta, pois ele não consegue entender você, e não sabe nada a respeito. Vá caminhando adiante, pois arrazoar com ele não surtirá efeito; a única coisa que você poderá fazer em favor dele é levá-lo para onde ele possa receber a abertura dos seus olhos. Debater com ele é totalmente inútil, pois ele não tem faculdades para isso. Se você soubesse que uma pessoa fora destituída de paladar, você não discutiria com ela por ela dizer que o açúcar tem o mesmo gosto que o sal: ela nem sabe o que significa "doce" nem o que significa "salgado", mas emprega as palavras sem compreendê-las. E um homem que não tem graça no seu coração não sabe nada a respeito da religião, e nem poderá saber. Ele capta as frases, mas não sabe tanto a respeito da verdade quanto o botânico que nunca viu uma flor sabe a respeito da botânica, ou quanto um surdo sabe a respeito da música. Procure não discutir com essas pessoas, creia que são incapazes de aprender com você através do raciocínio, mas recorra ao Espírito Santo de Deus, e clame a ele: "Senhor, abre-lhes os olhos! Senhor, abre-lhes os olhos!" Seja paciente com elas, porque você não pode esperar que os cegos vejam, nem deve ficar zangado com eles por não verem. Mas fique em espírito de oração em favor deles, e leve a eles o evangelho no poder do Espírito Santo, e então, é possível que seus olhos sejam abertos. Mas não estranhe se disserem que você é fanático, um entusiasta, um metodista, presbiteriano, artificial, hipócrita - palavras que os espiritualmente cegos lançam contra aqueles que conseguem ver. Você diz ter uma faculdade que eles não possuem; eles, portanto, negam a existência dessa faculdade porque não gostariam de reconhecer que você tem vantagem sobre eles, e assim, expulsam você da sinagoga.

Mas notemos que foi quando esse homem foi expulso da sinagoga que Jesus Cristo o achou. Foi uma perda bendita para ele, portanto: perdeu os fariseus e achou seu Salvador. Ó irmãos, é uma grande bênção quando o mundo realmente nos expulsa! Lembro-me de uma senhora excelente, com título de nobreza, e que agora está no céu; quando ela se afiliou a esta igreja, foi abandonada por todas aquelas pessoas de alta categoria que antes se associavam a ela; e eu lhe disse, e ela compartilhou do meu sentimento: "Que bênção que você está livre deles! Eles poderiam ter sido uma arapuca para você. Agora (falei) você terá mais problema com eles." "Sim", e ela acrescentou: "Por amor a Cristo eu me satisfaria em ser considerada a escória de todas as coisas!" A alta sociedade deste mundo nunca foi de nenhum benefício para nós, e nunca o será, e a tentativa de ser muito chique e de conviver nessa "alta" sociedade e com tudo que está envolvido nela é o laço e o tropeço para muitos cristãos. Estime os homens segundo seu valor real, e não pelo seu papel alumínio dourado, e considere como os homens mais grandiosos aqueles que são os mais santos e, como a melhor companhia, aqueles que mantêm companhia com Cristo. Para a igreja, é uma grande bênção quando ela é perseguida. Quanto a isso, poderíamos ficar contentes a termos de volta os dias de Diocleciano. A igreja nunca é mais pura, nunca mais íntegra, nunca mais devota, e nunca cresce mais rapidamente do que quando desfruta do mau conceito da sociedade; mas quando passamos a ser consideradas pessoas excelentes, e nossa igreja for honrada e estimada, e respeitada, instala-se a corrupção, afastamo-nos de Cristo, e comprovamos de novo que a amizade do mundo é inimizade contra Deus. Conceda o Senhor que tenhamos os olhos tão bem abertos que nosso testemunho provoque contra nós a acusação de excentricidade, pois assim, uma vez excluídos do convívio daqueles que não conseguem enxergar o Senhor, possamos viver tanto mais perto dele, e isso nos será grande lucro.

O Senhor os abençoe, amados, por amor a Jesus Cristo. Amém.

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